Tuesday, July 08, 2014

Entre aspas e desculpas

Hoje não é um bom dia para escrever porque estou menstruada.
Nunca é um bom dia para fazer qualquer coisa quando se está menstruada, sem ser ficar no sofá a beber chá, fumar cigarros, ver televisão sem importância, com gatos ao colo e casualmente uma barra ou duas de chocolate.
Vê-se um filme. Tem-se uma ideia arrebatadora e muito crítica em relação ao mesmo.
Vê-se em período normal. Fica-se com uma ideia completamente diferente.
Lê-se um livro. A mesma coisa.
Ouve-se uma música. A história repete-se.
Termos que nos vestir é um drama, porque tudo fica mal e a barriga está inchada.
O cabelo está uma miséria e a cara transfigurada.
As dores só são suportáveis depois de enchermos o corpo de drogas mas ainda assim há sempre uma moínha chata que só amaina quando voltamos ao sofá.
A apatia é incrível, a choradeira e a euforia também.
Não é um bom dia para escrever, porque vou escrever sobre coisas que só hoje vou dar importância, que só hoje sei que têm importância, que amanhã não terão importância nenhuma.

Hoje não é um bom dia para escrever porque estou com o tempo contado.
Nunca é um bom dia para fazer qualquer coisa quando temos o tempo contado sem ser quando temos o tempo contado para não fazer nenhum.
As pedras da calçada fazem tremer o autocarro, os carris o eléctrico, e a maresia o barco.
A caligrafia sai feia e as linhas deixam de ser direitas. Passado uns dias se vou a ler o que escrevi, custa-me o dobro a perceber o que lá está.
Se estás no café com o tempo contado, aparece sempre alguém.
Se estás a trabalhar, aparece sempre alguém.
Se vais à casa-de-banho, o teu organismo conta o tempo por ti.
Não é um bom dia para escrever, porque vou escrever sobre coisas rápidas, sobre ideias que voam soltas na minha cabeça, atirá-las para dentro de uma lata para mais tarde dar continuação. E aí já perdi o fio à meada.

Hoje não é um bom dia para escrever porque fiquei sem tabaco.
Hoje não é um bom dia para escrever porque morreu alguém que eu conhecia.
Hoje não é um bom dia para escrever porque o dia me correu muito bem.
Hoje não é um bom dia para escrever porque estou cansada.
Hoje não é um bom dia para escrever porque está sol e vou-me perder a beber refrescos na esplanada.
Hoje não é um bom dia para escrever porque está a chover e vou-me irritar a cada gota que cair perto da minha janela.
Hoje não é um bom dia para escrever porque acabou o meu incenso.
Hoje não é um bom dia para escrever porque não encontro o meu disco favorito.

Nunca é um bom dia para escrever ou fazer qualquer coisa que não seja do nosso desejo ou impulso directo com destino ao futuro.
A partir do momento em que predestinamos que temos que escrever ou fazer qualquer coisa, é impreterível a concentração, o juízo e a responsabilidade.
A partir do momento em que o começamos a fazer é impossível voltar atrás.
A partir do momento em que decidimos começar a escrever cria-se um vício no corpo.
Dá-se um mimo ao escape e à forma de expressão mais intíma e temos que continuar a tocar em todas as teclas do piano até a melodia estar completa.
Quando se deixa de escrever, a mente começa a acumular palavras, letras e ruídos que mais tarde ou mais cedo se desenvolvem numa avalanche de dores de cabeça e confusão mental.
Por isso escrevam, berrem, dancem, desenhem, ou não façam nada.
Um bom texto, um bom berro, uma boa dança, um bom desenho a partir do momento em que o corpo lhes sente o cheiro necessita de crescer e ser desenvolvido dia-a-dia.
Liberta a mente do stress rotineiro e desentope as artérias do pensamento.
É como um bom peido depois de uma série de cólicas acumuladas.
Deitem tudo cá p'ra fora.
Deixem fluir os vossos gases em prol do vosso bem.

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