Thursday, May 17, 2012

As cartas dela


Tinha ela cerca de 30 anos quando a conheci. Eu era um pouco mais novo.
Trabalhava satisfazendo as delícias dos discípulos de Baco. Nas minhas horas vagas, alternava entre afiar as unhas na guitarra e limá-las num caderno.
Conheci-a no meio da rua, quando me perguntou quais eram as músicas de que gostava mais.
Indaguei-me de onde teria aparecido, mas ela ignorava o que eu dizia, e continuava a querer falar comigo, deixando-me curioso.
Ouvimos música juntos, discordámos, rimos, abraçámo-nos.
Contou-me a sua história, eu contei-lhe a minha. 
Do pouco que me ouviu, não sei o que reteve.
Sem termos forma de nos contactar, a única maneira que tinha de a ver, era quando me procurava.
Via-a de tempos a tempos, sempre com um sorriso na cara.
O seu riso era contagiante, mas a sua tristeza era também bastante palpável.
Não sei que espécie de conforto encontrava em mim, mas era notório que o encontrava.
Um dia, entre licores dos deuses e cigarros perdidos, perguntou-me se queria partir com ela para o país vizinho, em busca de novas vivências.
Naquele instante decidi aceitar. Não me arrependi, até porque sempre fui uma pessoa que gostou de conhecer novas culturas, de viver aventuras, de experimentar novos sabores.
Fiz as malas e esperei-a junto dos comboios.
Partimos rumo a uma vida nova, uma terra nova, uma língua nova.
Não sabia muito bem o que esperar. Não me queria envolver com ela, pois não me parecia uma pessoa consistente, apesar de me parecer uma pessoa muito apaixonada.
Corremos campos, bares, teatros, casas, sofás, tascas, praias; viajámos a pé, de tractor, de barco.
Abraçámo-nos em fotografias, compusémos músicas juntos.
Dançámos e bebemos sem temer o dia seguinte.
Mas algo não a fazia esquecer a tristeza que ela própria havia implantado em si.
Uns tempos depois, acordei com ela a preparar-me o pequeno-almoço com um sorriso novo.
Quando lhe perguntei o que se passava, recebi uma resposta que não estava à espera.
Pediu-me que escrevesse cartas à sua família.
Havia partido sem deixar rasto, e não queria mais comunicar com quem sempre a estimou.
As suas razões não eram óbvias, mas em contexto fariam sentido.
Estava farta de respirar. Estava farta disso e não tinha coragem para o dizer à família.
A solução que tinha encontrado era esta. Que eu escrevesse cartas para a família dela. Que as escrevesse até que eu decidisse quando morreria.
Dava-me um papel para a mão que eu não sabia se conseguia ter.
Queria que eu vestisse uma personagem que dentro em breve deixaria de respirar.
Sempre preservei a liberdade. Sempre respeitei as ideias dos outros, esta é a minha maneira de me sentir livre, e de poder dar liberdade aos outros, a liberdade que tanto desejam.
Disse-me que iria partir, em busca de um sítio onde se sentisse confortável, completa e feliz.
Esse foi o meu trato com ela.
Que me enviasse uma carta ou um postal assim que encontrasse o paraíso que procurava, e eu então enviava as cartas para a família dela.
O sol brilhava entre os vales e o reflexo do meu copo na mesa foi apagado por uma mão que pousou um postal.
Era ela.
Havia encontrado o seu sítio confortável.
Descrevia-o como sendo mais bonito que as serras na primavera, as faces das crianças e mais suave que o toque do mar nas nossas mãos.
Despedia-se com um abraço profundo e junto com o postal vinha um embrulho grande.
Um pedaço de barro esculpido.
Uma mão que tocava num peito.
A mão dela no meu peito.
Perguntei-lhe quando nos voltaríamos a ver, ela respondeu "Não sei, não sei se te quero voltar a ver, tenho medo de me apaixonar por ti".

Ela saíu do quarto, e afinal quem desapareceu fui eu.
E nunca disse adeus.

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