Monday, September 03, 2012

Toma as palavras, agora constrói a história

É engraçado como a maior parte das pessoas tende a encontrar via inconsciente ou coincidência, mensagens, ambientes, sinais ou pessoas, que vão de encontro e acordo com o seu estado de espírito.
Cheguei à estação de metro do Marquês de Pombal.
Domingo, 21h30.
Um metro havia partido.
A estação estava vazia, de um lado e do outro.
Só lá estava eu.
Só lá estive eu durante largos minutos.
Sem som.
Só eu e aquelas paredes velhas.

Sunday, September 02, 2012

Cartas ao futuro

Passou-se quase um ano desde a última vez que te toquei.
Nesse último ano, vi-te muitas vezes ao longe.
Senti o teu cheiro, vi fotografias tuas, sonhei contigo, senti falta do teu abraço.
Era quase noite, resolvi ir ter contigo.
Recebeste-me como se nem um dia da minha ausência se tivesse passado.
O teu cheiro, a lua reflectida nas tuas costas, o teu toque, nada mudou.
Eu também não mudei. E mesmo que tivesse mudado, tu aceitavas.
Nunca te vi revoltado contra mim, e aceitava isso melhor do que se fosse outro qualquer.
Mergulho para dentro de ti, e fazemos amor.
Eterno.

Friday, July 27, 2012

Não marques nada

Encontra-me no sítio mais bonito da cidade.
Encontra-me onde a chuva que cai é lilás, a minha cor favorita.
Encontra-me onde o castanho madeira roça o verde velho, e o enferrujado roça o seco.
Encontra-me onde os cascos de madeira jogam ao coito, e não saem do seu poiso, rodeados pelos filhos da chuva e as pedras da calçada.
Encontra-me onde o verde quase branco enfeita a cabeça daquela miúda, que num chão imenso estica a perna direita para trás, como se fosse uma ginasta.
Encontra-me atenta e curiosa, separada do sítio mais bonito da cidade, por uma máquina que temo.
Encontra-me agora nos meus sonhos.

Sem entradas

A última estória que contei sobre alguém, tornou-se realidade.
A minha imaginação, o meu tacto sensível e a tinta da minha caneta, encontraram-se num ponto em que o futuro era tão fácil de prever, que a estória fluiu naturalmente.
Gostava de contar mais estórias que me contassem e prevenissem sobre o futuro, mas às vezes o que achamos que é mais previsível, é exactamente o oposto.
Se quisesse contar uma estória sobre ti, acabavas a limpar as tuas lágrimas ao cachecol que havia esquecido em tua casa.
Não conto, pois nem sequer sei o teu presente.
Bem vistas as coisas, nem o quero saber, nem o quero contar.
Guardo a tinta para os chocos.

Saturday, July 21, 2012

Seja uma figura na linguagem

Quando crescer vou vender metáforas em frascos, a copo e a avulso.
As metáforas são um óptimo escape para quando não temos tomates para dizermos o que queremos; para quando o cinismo e o desprezo se entrelaçam na nossa língua e comandam o nosso discurso social; para quando estamos cansados de ser sinceros e isso sair pior do que coisas entrelaçadas na língua ou tomates ainda verdes.
"Toma disto, engole aquilo, chupa aqui.
Rende-te à minha medicina ou desaparece.
Faz o que quiseres, mas não me apareças à frente se não reúnes as poucas condições que me fazem crer no pouco valor que têm os animais racionais, ditos humanos.
Obrigada, volte sempre."

Tuesday, July 10, 2012

Falta(s-me)

Se há textos sem lógica, como um quadro abstracto que nos permite trabalhar o conhecimento e a nossa imaginação, também há textos sobre tentar descobrir uma lógica onde não há, para tentar obedecer  a esse princípio que move quase todos os homens que é procurar uma lógica em quase tudo o que fazem.
Porque estamos aqui, porque comemos, porque amamos, porque sofremos, porque indagamos, porque sorrimos, porque choramos, porque temos um dialecto e uma cultura diferente de outros habitantes deste mesmo planeta. Porque sentimos saudades.
Porque sentimos saudades do que não conhecemos?
Porque sentimos saudades de um passado que mal vivemos e de um futuro que não sabíamos se iríamos viver?
Porque batalhamos em busca de uma felicidade ao invés de nos contentarmos com a que temos?
Porque já não temos idade para isso. Porque começamos a crescer e a achar que já é altura de nos satisfazermos e tentar agir segundo as nossas crenças embora possam ser inalcançáveis, por serem contrárias às da maioria.
E um dia, na terceira idade, nós insuportáveis, teimosos e rigorosos para com os nossos princípios e as nossas crenças, aí sim, seremos felizes.
Então a minha lógica ilógica é esta.
E continuarei a sentir saudades tuas, quem não conheci.

Monday, June 18, 2012

O autocarro

Troquei o barulho do motor pelo silêncio massivo que se fazia sentir.
Ouviam-se pés a raspar no chão, janelas a tremer, respirações profundas e uma outra tosse de vez em quando.
Troquei este silêncio de palavras pelo silêncio que não se ouvia.
Ouviam-se listas de supermercados, canções populares portuguesas, sonhos perturbados pelos três silêncios que se faziam ouvir, memórias do passado e problemas do futuro.
Juntei os três silêncios e era uma sinfonia inaudível.
Tanto problema com os silêncios entre estranhos, mas aqui é como todos se conhecessem e respeitassem o espaço e silêncio de cada um.

Thursday, May 17, 2012

As cartas dela


Tinha ela cerca de 30 anos quando a conheci. Eu era um pouco mais novo.
Trabalhava satisfazendo as delícias dos discípulos de Baco. Nas minhas horas vagas, alternava entre afiar as unhas na guitarra e limá-las num caderno.
Conheci-a no meio da rua, quando me perguntou quais eram as músicas de que gostava mais.
Indaguei-me de onde teria aparecido, mas ela ignorava o que eu dizia, e continuava a querer falar comigo, deixando-me curioso.
Ouvimos música juntos, discordámos, rimos, abraçámo-nos.
Contou-me a sua história, eu contei-lhe a minha. 
Do pouco que me ouviu, não sei o que reteve.
Sem termos forma de nos contactar, a única maneira que tinha de a ver, era quando me procurava.
Via-a de tempos a tempos, sempre com um sorriso na cara.
O seu riso era contagiante, mas a sua tristeza era também bastante palpável.
Não sei que espécie de conforto encontrava em mim, mas era notório que o encontrava.
Um dia, entre licores dos deuses e cigarros perdidos, perguntou-me se queria partir com ela para o país vizinho, em busca de novas vivências.
Naquele instante decidi aceitar. Não me arrependi, até porque sempre fui uma pessoa que gostou de conhecer novas culturas, de viver aventuras, de experimentar novos sabores.
Fiz as malas e esperei-a junto dos comboios.
Partimos rumo a uma vida nova, uma terra nova, uma língua nova.
Não sabia muito bem o que esperar. Não me queria envolver com ela, pois não me parecia uma pessoa consistente, apesar de me parecer uma pessoa muito apaixonada.
Corremos campos, bares, teatros, casas, sofás, tascas, praias; viajámos a pé, de tractor, de barco.
Abraçámo-nos em fotografias, compusémos músicas juntos.
Dançámos e bebemos sem temer o dia seguinte.
Mas algo não a fazia esquecer a tristeza que ela própria havia implantado em si.
Uns tempos depois, acordei com ela a preparar-me o pequeno-almoço com um sorriso novo.
Quando lhe perguntei o que se passava, recebi uma resposta que não estava à espera.
Pediu-me que escrevesse cartas à sua família.
Havia partido sem deixar rasto, e não queria mais comunicar com quem sempre a estimou.
As suas razões não eram óbvias, mas em contexto fariam sentido.
Estava farta de respirar. Estava farta disso e não tinha coragem para o dizer à família.
A solução que tinha encontrado era esta. Que eu escrevesse cartas para a família dela. Que as escrevesse até que eu decidisse quando morreria.
Dava-me um papel para a mão que eu não sabia se conseguia ter.
Queria que eu vestisse uma personagem que dentro em breve deixaria de respirar.
Sempre preservei a liberdade. Sempre respeitei as ideias dos outros, esta é a minha maneira de me sentir livre, e de poder dar liberdade aos outros, a liberdade que tanto desejam.
Disse-me que iria partir, em busca de um sítio onde se sentisse confortável, completa e feliz.
Esse foi o meu trato com ela.
Que me enviasse uma carta ou um postal assim que encontrasse o paraíso que procurava, e eu então enviava as cartas para a família dela.
O sol brilhava entre os vales e o reflexo do meu copo na mesa foi apagado por uma mão que pousou um postal.
Era ela.
Havia encontrado o seu sítio confortável.
Descrevia-o como sendo mais bonito que as serras na primavera, as faces das crianças e mais suave que o toque do mar nas nossas mãos.
Despedia-se com um abraço profundo e junto com o postal vinha um embrulho grande.
Um pedaço de barro esculpido.
Uma mão que tocava num peito.
A mão dela no meu peito.
Perguntei-lhe quando nos voltaríamos a ver, ela respondeu "Não sei, não sei se te quero voltar a ver, tenho medo de me apaixonar por ti".

Ela saíu do quarto, e afinal quem desapareceu fui eu.
E nunca disse adeus.

Cortar laços com alguém

Uma frase simples, sem palavras negativas, com um ornamento bonito, e um sujeito qualquer.
Com menos 50cm, a visualização desta frase, seria como a inauguração de um espaço em que por exemplo, um presidente de uma junta de freguesia tem uma tesoura grande, como aquelas que se usam para podar arbustos, e com uma simples tesourada, desfaz o belo laço vermelho que vai abrir um caminho para se poder desfrutar de um novo espaço.
Com mais 50cm, a visualização que tenho desta frase, continua a ser mais ou menos igual.
A diferença é que agora a tesoura está enferrujada, o laço é bonito demais, e o prédio por detrás do mesmo, ameaça cair.
Já não acho a frase bonita, nem acho que faça juz ao seu sentido.
Num mundo em que a imaginação prevalecesse à realidade e fosse dada a escolha entre uma acção ou outra, era bem possível que muito mais pessoas cortassem laços umas às outras, com a esperança dúbia que um dia mais tarde pudessem dar um nó nesse laço desfeito.
Haveria então mais lugar para o arrependimento e uma maior dôr.
Que tal acabarmos com as frases feitas que nos tentam embelezar a vida?
Todos nós sabemos que a vida é mais cruel do que isso.
E atirar areia para os olhos de alguém com menos 50cm do que nós, não é menos cruel.

Monday, May 07, 2012

P'ra ti que me massajas

O céu é amarelo e massaja-me a barriga.
Deitado de costas, ouço a chuva cair.
Tenho sombras que me afagam os pés, e uma maior que me segura a cabeça para que não caia.
Às vezes ouço carros a passar, outras vezes crianças que brincam.
Quase sempre os passos são acelerados e quase nunca ouço a voz de quem me massaja.
Vozes várias alimentam o meu imaginário.
Ouço muitas histórias, sinto muitos cheiros, brisas, mas nunca falo sobre eles.
Dou-os todos a guardar, e deixo que decidam o que conto.
Falo à medida que penso, e às vezes sinto o sabor a tinta na minha boca.
E assim vivo eu.

Tuesday, April 17, 2012

Estoy aprendiendo

O primeiro passo para a loucura é nascer.
Depois, depende do espírito de cada um.

Saturday, April 14, 2012

Cantigas salivadas

É dentro da confusão mental que ando a viver, que cada vez mais chego a conclusões fortes sobre a minha maneira de pensar, agir e estar.
Não julgo ninguém, nem admito que me julguem.
Poucos me conhecem, e muito poucos me vão conhecer.
Só eu sei a que é que cheiro, e não é por não me querer explicar ou fazer transparecer.
As pessoas é que vivem enfrascadas em garrafas rotuladas com moralidades e princípios que lhes foram impostos.
Seja na forma como foram educadas, os livros que leram, as canções que ouviram, os trilhos que resolveram traçar.
Se alguém destapa um bocadinho da rolha e deixa entrar um ar diferente do que estão habituadas a respirar, sentem-se envenenadas, conspurcadas, violadas.
E a saliva é uma coisa que só dura até à hora da nossa morte. E essa hora pode caber-nos a nós decidir qual é.
Independentemente de ser física, psicológica, espiritual ou simplesmente para os outros.
Mais vale então guardá-la (à saliva) para por exemplo se cantarem canções que estes outros possam ouvir, julgar, inspirar e expelir.

Conversas com Deus

Entre falar comigo e falar com Deus, a diferença não é muita.
Acredito em mim, tento-me perdoar quando peco e os meus pecados sou eu que decido quais são.
Ofereço-me o melhor e o pior que tem a vida, e aprendo com isso.
Abraço a mãe natureza, e tento extrair do seu suco, o melhor que ela me pode dar.
Enveneno-me quando estou bem e quando estou mal. Presenteio-me quando estou bem e quando estou mal.
Falo para dentro, e escrevo testamentos. Há velhos e novos, mas o tempo é subjectivo, pois a minha moral será sempre imortal.

Thursday, April 12, 2012

Lexicus

Quando o teu léxico de palavras não passa de uma aguadilha, torna-se difícil vomitar cá p'ra fora a sopa de letras que te fez engasgar.
Ainda assim, escarafunchas a garganta com a mão que te alimenta, almejando tocar no sítio mais inalcançável das tuas profundezas.
A opção é só tua.
Ou te contentas com a aguadilha, ou escarafunchas até conseguires. Também.. é só a ti que tens que contentar.

Tuesday, April 03, 2012

Uma faca, um coração, e uma questão de sorte.

What is love?
Toda a gente tem uma definição diferente para o que é o amor.
Oscilam entre ser mau ou bom, dependendo dos destroços que lhes possa ter causado.
Procuram uma definição para a palavra e sentimento amor, e por norma ninguém consegue explicar o que é.
O que me fascina é exactamente por ninguém conseguir explicar o que é, como há então uma facilidade tão grande em falar no mesmo?
Escrevem-se poesias, prosas, rimas, versos, cantigas, serenatas, odes, manifestos.
Se é assim tão difícil de explicar, tão difícil de saber, tão difícil de tocar, então porque é que há esta facilidade tão grande?
O tema "amor" é possivelmente o mais escolhido para se escrever ou cantar sobre.
Talvez porque no meio dessa confusão as pessoas tenham chegado a um consenso a respeito deste sentimento grandioso.
Sabem que é quente, que pode ser doloroso, mas que se for bem aplicado é bom e nos faz sentir bem.
É por isso que pouco escrevo sobre o amor.
Prefiro explorar outras questões ou sentimentos menos comuns ou palpáveis.
Até porque a meu ver, o amor é subjectivo.

A fome gasosa.

Se os sonhos são gasosos porque não os esculpir e torná-los sólidos?
Talvez este processo seja doloroso para quem não os vive.
É de fácil compreensão.
Ainda assim, também é de fácil compreensão que aos menos os tente tornar líquidos com a força de uma caneta, para de algum modo os poder expandir e matar a minha fome de ocupar o tempo ao invés de o ocupar com pensamentos, verdadeiros, pesados e sólidos.

Amar o mar

Fotografei-te.
Parecias um burro a olhar para um palácio, como se nunca me tivesses visto.
Os teus olhos penetravam-me e o teu cabelo esvoaçava na minha direcção.
Os teus dedos acariciavam-me, e o teu corpo inclinava-se sobre mim.
Justificaste-te perante mim, dizendo que te fascinava o meu tamanho, a minha imensidão, o meu poder, a minha simples beleza.
A minha beleza, que por ser tão simples, era a mais bela de todas.
Fiquei apaixonado pela forma como me olhaste, tocaste e descreveste.
Só tenho pena de não me ter apaixonado por ti.
É que para mim, vocês são todos iguais, e usam sempre as mesmas palavras.
Mas descansa, nunca vou esquecer o teu olhar.

Monday, April 02, 2012

Perder tudo!

Não entendo porque se fala em perder a cabeça, quando é muito mais comum de se perder tempo, a pensar onde se perdeu a cabeça, onde se irá perder, onde se irá encontrá-la.
Perde-se é tempo, muito tempo.
Eu por exemplo, perdi agora cerca de umas 4 horas, e não sei onde as pûs.
E já estou farta de as procurar.
Só que o facto de estar farta de as procurar, faz com que não tenha mais vontade de o fazer. Então continuo a perder tempo.

fruta-cores

Qual é o teu fruto preferido?
O proibido ou da tua imaginação?

Espinal medula

Encontro-me numa espiral medusa.
Mentira, não me encontro nada.

Saturday, March 24, 2012

peish

Quando abri os olhos ainda estava dentro de água.
Esquisito, pensei. Ao me libertar desta goma, era suposto respirar somente ar. Mas era só água que existia à minha volta.
Nadei, nadei, nadei, e comecei a perder noção do mundo à minha volta.
A minha mãe já estava bem longe, os meus irmãos haviam seguido o seu caminho.
E agora que faço? Já sei, vou continuar a nadar.
Sinto falta de ter sido criança. Já ouvi estórias e pareceram-me todas bastante agradáveis. A ingenuidade, a descoberta, essas coisas todas bonitas que se perdem quando crescemos.
Não me lembro de as ter tido. Quando nasci, já era grande, e o ar que respirava estava todo dentro de água.
Nado sozinho, sempre nadei. Adoro o mar, por isso o persigo, sempre à espera que me mostre algo de novo. Mas por mais voltas que dê, acabo sempre por navegar nas mesmas ondas.
O que mais me custa é não conseguir fechar os olhos.
Mas também quando o fizer, há de ser p'ra sempre.

Tuesday, March 20, 2012

O que escreves?

Eu escrevo apenas o que sinto.
O que vejo, o que leio, o que ouço, o que saboreio.
Há tanta liberdade nisto como na vossa interpretação.

Pode?

Pode existir um mundo em que a conexão carnal possa andar a par com a conexão espiritual, amorosa, e de compromisso?
Ou parte-se já do principio que este será um mundo sem princípios ou respeito?
Um mundo em que não haja julgamentos por parte de quem não viveu, não sabe, nem sonha.
Um mundo onde há precipitação, momentos intensos e não há futuro.
Um mundo onde a única moral a ser cumprida é a nossa, e os princípios mesmo que desrespeitados sejam os nossos.
Um mundo em que o que não consideramos maldoso, quando nos é mostrada a outra face da moeda, continuemos a concordar com a nossa ideia inicial.
Um mundo em que a obrigação, o compromisso e o respeito, não andem de mãos dadas por não serem solidários com a hipocrisia e a falsa moral.
Um mundo em que não há mentira, pois todas as pessoas são incrivelmente francas e genuínas.
Um mundo em que o egoísmo é algo positivo, porque quem o pratica é mais feliz, e não precisa de magoar ou passar por cima dos outros para atingir essa felicidade.
Um mundo em que o nosso espaço é respeitado, exactamente por ser "nosso", e ao ser nosso, somente a nós dizer respeito.
Poderá a utopia ser palpável?
Ou os sonhos deixarem de ser gasosos?

Histórias de embalar

Uma história de embalar, das duas uma: ou deveria ser uma história enfadonha de modo a nos causar e dar sono; ou uma história incompleta, p'ra que quando fechássemos os olhos, pudéssemos imaginar o resto da história, até os nossos pensamentos conscientes se misturassem com os do inconsciente e acabássemos eventualmente por adormecer.
Um dia destes escrevo uma a sério. É que todas as noites o faço, só que o inconsciente liga-me directamente ao sono, e deixa-me o corpo dormente, de maneira que pegar numa caneta e num caderno se torna extremamente difícil.

Friday, March 16, 2012

Crianças..

Cada vez mais adoro a inocência das crianças.
Uma criança que não me conhece, que corre para o meu colo, me abraça e me dá um beijo, talvez porque tenha simpatizado com o meu rosto ou com o meu sorriso, é um dos actos mais puros a que já assisti.
Admiro-lhes a inocência e tenho pena que a mesma não seja administrada inconscientemente a mais adultos.
Adoro beijar uma criança na face, fazer-lhe festas no cabelo e tê-la ao colo, mesmo que sejam momentos de silêncio.
O crescimento tira-nos esta inocência, e um gesto destes com um adulto, incita logo maldade e segundas intenções.
Tenho pena.
Porque até há dias em que gosto de humanos já crescidos.

Wednesday, March 14, 2012

Poesia concluída

A poesia que há num copo de vinho pronto a ser degustado, só é mais bonita que num copo de vinho vazio, porque quando a alma se enche e os lábios não cerram em alguém que não teme o que diz, as palavras não vibram oralmente.

Saturday, February 25, 2012

Este sou eu

Só passou um minuto e parece que estou aqui à uma eternidade.
"Pára de escrever e conversa comigo", disse-me ela.
"Deixa de estar como gostas e vem ouvir os meus problemas infindáveis. Justifica a minha presença neste local e põe-me um sorriso na cara", quis ela dizer.
E assim o fiz. Guardei o caderno e fui dançar, numa dança macaca que a animava enquanto viajava no meio de todos os seus problemas.

Dois dígitos depois da casa dos dez

Porque é que não posso fazer as perguntas que quero?
Porque é que não posso saber as respostas correctas e os sentimentos verdadeiros?
Porque é que as pessoas insistem em negar o que sentem? Será por medo da repressão que poderão sentir?
Será isto a crise da meia-idade dos porquês?
Porque é que quando exponho o que sinto as pessoas se afastam? Será um ar assim tão pesado?

Ontem imaginei um mundo

Estou farta destas cores.
Estou farta das sombras das pessoas.
Apetecia-me entrar num sítio em que fossem todas círculos, quadrados ou triângulos.
Estou farta dos erros que toda a gente comete.
Estou farta de errar e farta de pensar.
Estou farta que haja explicações rápidas para coisas que não têm explicação.
Estou farta dos mesmos movimentos de anca, farta dos braços levantados a segurar um copo, farta das músicas sempre o mesmo sol e dó.
Tenho dó disto tudo porque não vejo sol nenhum.
Está tudo escuro e feio.

Thursday, February 16, 2012

Question

Será que os espelhos nos enganam a vista como a nossa voz engana os nossos próprios ouvidos?

Thursday, December 29, 2011

Sonhos

Gostava que os meus sonhos fossem a minha vida.
Não para os viver, pois são caricatos ou assustadores.
Mas sim porque a minha vida são só sonhos, e estou farta de não os viver.
São iguais aos que se comem.
Doces, dá-se uma trinca, e puff.
Num instante eles desaparecem, e de repente, já estou cheia de fome.

Wednesday, December 14, 2011

Letra k

É tipo um livro ou filme, que lemos ou vemos e com que nos identificamos.

Estou tão confusa em relação à minha identidade e ao meu propósito enquanto ser humano, que toda a gente me troca o nome.

O livro de multas

Sacou do livro de multas e voltou a autuar-se.
Cada letra, cada palavra, cada texto, uma acta.
Uma lição da professora para levar para casa por se ter portado mal.
Às vezes gostava de ter uma lente atarrachada ao livro para que pudesse fotografar o momento em que se estava a atuar.
Não era por sentir pena de si própria que se autuava. Mas sim, para relembrar mais tarde, as parvoíces em que se banhava.

Monday, December 12, 2011

Uma anormal num pedestal

Jazia estendida, fria e sem feições.
Rasgando-lhe a carne tentavam decifrar os seus segredos.
Os ombros contavam nós infinitos, incapazes de se desmembrarem.
Nós grossos, como o peso da idade e das preocupações que não se desfaziam.
A única solução seria escavar a carne dos mesmos até se encontrar os pequenos ossos que os suportavam.
Tinha ombros tensos que caíam sobre as costas marrecas que se dobravam até aos joelhos numa tentativa de beijarem o chão.
O canal respiratório era minúsculo.
Tinha o diâmetro de uma palhinha, por ter deixado de utilizar a boca tantas vezes e utilizar somente o nariz para respirar.
Os pulmões eram negros, secos e magros, como o ar que respirava.
O coração apresentava várias escoriações e encontrava-se envolto num líquido gelatinoso em tons de ferrugem.
O estômago era uma fina película, que unia as costas com a barriga, e tinha toda uma espécie de fungos ao abandono.
O sistema reprodutor era o único que se encontrava são. Ironia.
Os pés eram chatos, mostravam-se calejados e com feridas abertas por os arrastar tentando cavar a terra que pisava.
A boca era uma miséria.
As gengivas encontravam-se desfeitas, e confundiam-se dentes com maxilares, pela ausência de uns, e presença visual em demasia dos outros.
A boca estava colada com uma viscosidade que parecia seiva.
Ao abri-la, desfez-se em pedaços. O odor era intensamente mau. Um cheiro terrível a enxofre.
Das cordas vocais só sobrava uma, resistente à sua apatia geral.
Os dedos eram velhos e enrugados, e as unhas garras amarelas, duras e fortes, nas pontas lascadas.
Após uma análise sem sucesso, taparam-na com um lençol, envolto em mistérios que não quiseram ser percebidos.

Sunday, December 11, 2011

Traços direitos em dias tortos

Um traço, outro traço, outro traço..
Já fiz uns seis traços hoje, e nenhum deles me apaziguou a puta da dor de cabeça que tenho.
Enrolo mais um cigarro, bebo mais duas cervejas e meia, fecho a conta e vou p'ra casa, deixando o sorriso numa valeta qualquer e encostando a apatia na almofada.
Sete traços agora.

Saturday, November 26, 2011

20 copos a troco de tostões depois..


Às vezes acho incrível só poder ver o mundo através dos meus olhos.
Vejo toda a gente, vejo-lhes a cara, os olhos, as expressões, etc.
Nunca vejo a minha.
Vejo a minha mão direita a escrever, a esquerda a largar a cinza do cigarro.
Os meus olhos focam tudo o resto, menos aquilo que eu quero ver.
Esta linda personagem que escreve.

"Porque escreves sempre sobre coisas tristes?"

Porque ISTO é uma granda paródia!

Saturday, November 19, 2011

Vradeaeds.

Eostu tao leridata em aatipa que ate a ersecevr me eganno.

Friday, November 18, 2011

Vem com unhas afiadas

Tenho o coração a tentar rasgar-me o peito, e eu não sei com que cara lhe diga que ainda não é hoje.
Em princípio não é hoje.
Não sou eu que o dito.
Mas o gajo pula, pula, e não pára quieto.
Já não sei como o amansar, como o acalmar.
Como acalmar a inquietude dele.
Tento distraí-lo, mas quando sou eu que estou distraída, o gajo chateia-me outra vez.
Já tenho o peito todo arranhado.
Temo que um dia me rasgue o seio, só para poder espreitar cá p'ra fora, e tentar ver pelos seus próprios olhos, o que é que me prende.

Wednesday, November 16, 2011

"De onde venho, pouco importa."

"Porque é que escreves?" - perguntou-me ele.
"Porque fumas?" - perguntou-me ele.
"O chá está bom?" - perguntou-me ele.
"O que é que gostas de fazer?" - perguntou-me ele.

Apeteceu-me responder: "Gosto de fumar, beber chá e escrever. Mas isto tudo, sem ti."
Cortei a parte final e mantivémos uma conversa ridícula até eu acabar o chá e lhe virar costas, deixando-o como o encontrei.
Sozinho e confuso.

Olhe amigo, passa a dois!

pequenas criaturas

Dedos de criança que enrolam cigarros.
Lábios de menino, que sorvem o vinho.
Eles trazem seus sonhos, esperanças e fardos.
Eles deixam-me aqui, brincando sozinho.

Tuesday, November 08, 2011

Cristina & Sónia

Tina não atinava, e Sónia não sonhava.
Entre juras de amor, trocaram beijos e promessas.

Esta é a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.

Tina vivia de dia.
Levantava-se cedo, alimentava-se de vitaminas e namorava o sol com seu largo sorriso.
Era vivaça, queria sempre mais, porém temia sair de casa à noite, o que tornava os seus dias cada vez mais curtos.
Deixava-os afundarem-se em horas perdidas, minutos gastos, movimentos ténebres e assustadiços, sempre com receio que sua vida passasse e nada fizesse.
Enquanto ela se preocupava, o dia passava, e quando o dia passava, a noite surgia.

Sónia adorava a noite.
Sentia-se criativa, glorificava o dia passado - ainda que infortuno - e abraçava os lençóis com uma força enorme, para poder amar em descanso, o repousar de seu corpo.
Mas o corpo não queria descansar.
O corpo queria mais.
O corpo queria actas.
Actas diárias, as quais Sónia não sabia preencher.
Tal como Tina, Sónia vivia na esperança de que chegasse a noite, mas esta para que pudesse chegar outro dia, e tornasse a anoitecer.
O fardo para ambas era tal, que em horários inversos se passeavam pela cidade, em busca de sinais que pudessem acelerar ou estagnar o tempo.
Num dia em que o pôr-do-sol se atrasou, Tina e Sónia trocaram olhares.
Olhares pesados que eram iguais.
Olhares caídos que queriam conforto.
Olhares devastados, que queriam compreensão.
Foi neste horizonte que trocaram palavras, pensamentos e horas.
Entre cafés, chás e torradas, o tempo permitiu que se expusessem uma à outra.
Sónia sentia-se desgastada pelo peso de seus olhos, Tina desgastada por não os querer fechar.
Juntas caminharam dias adentro, galgando minutos que pareciam eternos, e vivendo sonos em nada efémeros.
Viviam na felicidade de terem encontrado uma alma oposta e ainda assim, gémea, que as completava.
Juntas destruiram relógios, partiram persianas, queimaram cortinados.
- Que o sol e a lua entrem em nossas casas, como a nossa luz perpetuou a noite e o dia!
Os dias corriam ferozes, as semanas comiam as tardes, e as noites sugavam os meses.
Anos passaram, e rumando à felicidade, Tina e Sónia resolvem adoptar uma criança para viver em seu mundo cromático.
Inês de seu nome, trazia com ela o aspecto frágil e cansado das mães.
Por mais sóis, luas, solstícios que se passassem, nenhum raio de luz conseguia abrir uma fresta que fosse nos lábios daquela criança.
Tina e Sónia perdiam a esperança. O que as tinha unido era agora o que as queria separar.
Inês não cria no amor entre estas duas mulheres, e comparava-as frequentemente a azeite e água. Não conseguia conceber o amor destas duas pessoas tão distintas, que separadas eram um soro auto-destruitivo tanto para uma como para outra.
Discordava de suas ideologias e criticava suas "desrotinas" diárias.
O crescimento de Inês veio desenterrar o passado de Tina e Sónia.
Os dias começavam a ser mais curtos e as noites mais compridas.
Sónia já não sonhava, e Tina desatinava.
A casa dividiu-se em duas, e Inês engravidou.
Tina deambulava pela casa de pijama o dia inteiro, raspando a caspa de seus ombros e trincando bolachas de água e sal, enquanto aquecia o seu corpo com café bem quente, esperando que o final de tarde a forçasse a deitar-se para a fazer sonhar com um dia diferente.
Sónia de pijama andava também, com luzes baixas e fones colados aos ouvidos. Uma caneca de chá numa mão, um cigarro na outra, enquanto o rímel lhe escorria olhos abaixo à espera de uma amostra de sol, para que se pudesse ir deitar, e sonhar com uma noite diferente.
Inês afastou-se de suas mães. Fez-se uma mulher saudável e trouxe ao mundo uma linda menina chamada Luz.
Viviam os dias como deviam ser vividos, e seus lábios nunca mais fecharam.
Suas mães porém, nunca mais abriram os olhos.

Esta foi a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.

Foste aos treinos? RM

Falar da boca p'ra fora,
assim espalho a minha dôr.
O que eu pensei outrora,
ouvidos de mercador.

Entra a cem sai a duzentos,
haja alguém que não se queixe.
Assim são meus pensamentos,
pela boca morre o peixe.

Friday, October 14, 2011

O esquilo bochechudo

Sou um esquilo.
Sou um esquilo pequeno, de fraca figura.
Trepo às árvores e corro sem olhar para trás.
Corro irracionalmente e inconscientemente em busca de mais e mais comida.
Não sou um esquilo gordo, pois apesar de comer muito, tudo o que como é-me ameaçado como vómito, e expelido em fezes.
As minhas bochechas enormes armazenam toda a comida que não aprecio, mas que não consigo deixar de sorver.
O que mais gosto é aspirado instantaneamente para o meu estômago, e todo o restante - acre, amargo, podre, sem sabor - fica reservado durante muito tempo nas minhas bochechas.
Bem que tento mastigar com a pouca força que tenho, mas de pouco ou nada me vale.
Sou um esquilo que sabe escrever.

Tuesday, October 11, 2011

Casa de espelhos


Desculpa se a tua nuvem não é a que chove sempre em cima de mim.
Desculpa não seres inteiramente aquilo que te prometeram.
Desculpa este texto não ser para ti.
Desculpa não ser uma gruta que só ecoa a tua voz.

Pensamentos hexagonais são os que me instruí a não ter.
Vivo dentro de um cubo, que às vezes se transforma num hexágono, e ambos vivem dentro de um círculo.
Esse hexágono tem uma porta giratória, que tal como as convencionais só gira numa direcção.
O seu suporte, agreste e calcetado, segue somente o caminho do círculo, que se situa paralelo ao vasto universo da insensatez de um quadrado maior.
O quadrado pequeno é a minha casa, o meu espaço.
Lá guardo a minha memória, os meus princípios, os meus objectivos, a minha sensatez.
Quando as portas giratórias se abrem para o hexágono, assumo o papel de capitão, mas trago sempre cascos do meu quadrado comigo.
Peço desculpa se o meu cubo não tem seis lados, como o hexágono quer impôr.
Viver nesse círculo, é algo que não me atinge, nem sei se me atingirá alguma vez.
O quadrado gigante, paralelo ao círculo, vejo-o de vez em quando - quando salto do meu quadrado directamente para o maior, e abro apenas uma fresta para entrar ar fresco.
Mas nem sempre o ar fresco é bom para a saúde.
Às vezes em demasia causa-me náuseas e comichões na garganta.
Pego então no meu saco-cama e arrasto-me para onde a minha disposição me levar.

Monday, October 03, 2011

A velhice é um estado de espírito

Velhos prematuros, são aqueles que não conseguem compreender o ambiente ao seu redor ou conceber a verdade em que acreditam, independentemente da idade que têm.
Creio que haja casos em que estes velhos prematuros depressa se tornam em loucos.
Pecados mortais habitam e desabitam em seus corpos, como as marés. Maioritariamente imprevisíveis (ou irregulares).
Os ossos de seus corpos são de açúcar, e facilmente bamboleam e desfalecem. Quando de velhos passam a loucos, os mesmos ossos tornam-se em caramelo duro e inquebrável, nada fácil de roer e que só tendem a partir os dentes de quem os ataca, negando-lhes a verdade ou compreensão, pelas quais durante anos penaram e lutaram.
E não há velhos loucos.
Só loucos ou velhos.

Não é isso

Doem-me os pés, mas não é isso que atrasa o meu passo.
A camisa sobe-me, mas não é isso que faz com que a ajuste.
O cigarro sabe-me bem, mas não é isso que faz com que o devore.
O sistema de rega assalta o ruído em redor, mas não é isso que embeleza o silêncio.
A mão é ligeiramente jovem, mas não é isso que faz a caneta deixar de tombar.
A cortina está desfiada, mas não é isso que faz com que se feche.
O cansaço senta-se na sala de estar, mas não é isso que me faz querer dormir.
As pedras da calçada alimentam-me a imaginação, mas não é isso que me faz sorrir.
A minha espinha dorme o dia inteiro, mas não é isso que me mói.
É que.. eu odeio esperar.

Thursday, September 29, 2011

Enquanto a vida não arrebenta

Arrancada da placenta
Pela mão que a amamenta
Nasce uma míuda sardenta
No início dos anos oitenta.

Deveras rabugenta
É banhada em água benta
Naquela Páscoa barulhenta
Feito que p'ra sempre lamenta.

Com o seu metro e cinquenta
Come pastilhas de menta
D'aventuras sedenta
O sol cumprimenta.

Quando a febre fermenta
E quando já não aguenta
Olha o corpo que a atormenta
E demolha-a na sebenta.

Wednesday, September 21, 2011

VAI A ABRIR!

Lágrimas insultuosas acompanham os meus fios de cabelo.
Voam disparadas, atropelando os meus medos e pisando os meus cacos.
O meu cabelo chicoteia-me a cara enervadamente.
Os meus olhos tremem, o meu nariz coça, as minhas mãos suam, mas mesmo a esta velocidade, apenas a dôr me satisfaz.

Sunday, August 28, 2011

Como ninguém


Ninguém me dá o descanso e a paz, como o conforto material construído pelo homem.

Em cubículos dispendiosos, que só interessam a ociosos, olho em redor e deparo-me com ninguém.
Corpos inválidos, sem donos de si próprios, em sítios duvidosos, abanando-se como ninguém.
Mentes suportadas, por marionetistas, em corpos descrentes, pensam e agem como ninguém.
Tremo entre paragens, anseio por outras paisagens, ao longo das duas margens, enquanto flutuo como ninguém.
"O egoísmo reina!", grita-me a voz, mas eu não quero acreditar. Amo-te como ninguém.

Wednesday, August 24, 2011

Acorda-me quando deixares de falar.

Esta vista entorpecida deixa-me mal disposta, a recordar e a aperceber-me do que não quero.
Mas há dias em que se não tivesse esta vista, o dia iria ter uma performance mais confusa e entediante.
E assim são dois, contando com o factor surpresa.
Dois dias de tédio.
E dois é positivo!?

Monday, August 08, 2011

este mundo dá-me náuseas

"Minhas entranhas são como animais de estimação mal-educados. Elas podem-se revoltar a qualquer momento sem motivo aparente, mas no final eu quase sempre consigo domá-las. Basta dar mais atenção a leitura ou cantar uma boa música."

por Mariane Montedori (ler texto integral aqui)

Monday, August 01, 2011

Aninhava-me num monte de merda. Na boa.

(E aqui, o ponto final é o que faz mais sentido, é o que tem mais poder, é o que decide tudo. É o que dá a sentença aos braços cansados, pior que os braços cruzados. Braços moles e dormentes à espera de gangrenarem. É o que define o cansaço, é o que atropela as vírgulas, essas que se agregam nesta, naquela, e na outra, oportunidades de caminharem para a frente, como numa frase. Ele às vezes gostava de ser bem mais pesado, mais rígido, mais respeitado. Mas ele tem o mesmo peso que as suas sentenças. E acaba por se ver resumido, a um mero ponto final.)

Friday, July 22, 2011

Dores de cabeça infernais

Ele não chorava. Não sabia ou não queria, nem ele percebia.

As gerações de lágrimas que na sua cabeça habitavam, formavam uma família de gotas cada vez maior que se tornava num mar.
Um mar revoltado por se ver mudo.
Um mar frustrado por não se poder expandir.
Um mar sufocado por se ver preso.
Povoavam deprimidas entre as órbitas e o cucuruto deste ser, multiplicando-se cada vez em mais, inúmeras, lágrimas salgadas.
Os seus gritos eram ensurdecedores.
Roíam o seu caminho até à órbita, na tentativa de fazer ruir a fachada da mesma.
O canal nasal ou a traqueia, ficariam a um nível muito acima ou muito abaixo.
Comunicar de outra maneira não sabiam, por isso ferir o coração estava fora de questão.
Portanto já que dali não conseguiam sair, a única forma que tinham de se manifestar era através de ruídos ensurdecedores, causados pela fúria da movimentação dos seus ventos, e pelo embate forte na fachada da órbita.
O que causava fortes enxaquecas a este ser, que não queria chorar.

Thursday, July 07, 2011

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena."

Hmm.. não creio, meu caro!
Isto é tudo muito bonito de se dizer, mas sejamos prácticos.. não é bem assim.
A minha alma é grande, e não vale a pena pisar um cagalhão p'ra voltar a saber que cheira mal e vai custar a sair.
Se não do sapato, pelo menos da memória.

Sunday, June 19, 2011

O pão que o dia(bo) amassou

Era de pão, a cama onde o diabo se deitou.
Pão que fez, e amassou.

O pão que o diabo amassou, pû-lo na sopa.
E foi o melhor momento do meu dia inteiro.
Sentir o quente na boca de quem não queria comer.
Sentir o pão duro com dias, quase meses, a definhar dentro da sopa, como um corpo dormente a ser absorvido pelo universo.
Curioso serem hábitos de anos, que facilmente se tornam comparáveis a acções duvidosas de razão e certezas.
Comi o pão que o diabo amassou.
O diabo ignorante, que nem sequer era padeiro.
Quase se queimava seriamente a pôr a fornada ao lume.
Mas não se queimou, só ficou com uma ferida enorme que ardeu para sempre.
O pão estava mal cozido.

Se calhar por isso é que a sopa não me caíu bem.

Friday, June 17, 2011

O grande poder do olho de vidro e do cubo de gelo.

As pestanas.
São longas pestanas, em olhos de vidro.
Pestanas que correm o dia inteiro com a pressa que chegue a noite para que possam descansar.
Passam dias inteiros sem ver os seus próprios pés, pois a gravidade não lhes permite fazê-lo antes do corpo portador se decidir a descansar.

As lágrimas.
São lágrimas em vão.
É chuva que cai no chão.
Não se aproveitam, não se reciclam.
Abraçam-se ao globo ocular, escorregando de seguida.
Repetem o procedimento vezes sem conta.
Talvez por esquecimento, talvez por teimosia.
Talvez por quererem acreditar que é possível agarrá-lo e não voltar a cair.

O olho de vidro co-habita com o corpo humano.
Apesar de se tornar parte dele, marca sempre a sua posição, tal qual um cubo de gelo.
Frio, imóvel, intacto, alheio a movimentos à sua volta.
Indiferente aos restantes habitantes do mesmo, de modo a que a sua não manifestação de sentimentos ou opiniões, não se possam virar contra ele como uma faca de dois gumes, e que isto faça com que o corpo o cuspa para fora.
Limita-se a estar, e a viver no seu egoísmo.

Faz-me crer que tudo o que é irracional e inanimado é facilmente comparável à suposta identidade, individualidade, independência e racionalidade do ser humano.

Thursday, May 19, 2011

a ferida de Sara



Sara era saudosista.
Sara andava sempre nua, e por isso apanhava maleitas. Mal se curava de uma, adoecia logo de outra.
Acontecia muitas vezes ter o bom de uma doença (a febre quente, e os mimos que recebia), e o mau de estar de boa saúde (não se poder queixar, sentindo-se insatisfeita com isso).
Sara não parou de crescer. Crescia e mingava conforme o tempo; conforme os apeteceres do seu corpo; conforme as suas crenças, conforme as palpitações do seu corpo.
Sara amou muito. Também odiou, também ressentiu. Mas como tudo na vida dela, o ódio, os ressentimentos, o rancor, todos eles eram também visitantes passageiros.
Sara tinha sonhos perpétuos. Muitos reais, muitos ficcionais.
Sara era um livro aberto, que só se fechava quando um capítulo era aborrecido, ou o pó não a deixava ler-se.
Sara respirava como um peixe fora de água. Sofregamente mas a um ritmo tremendamente lento. Abria a boca muito devagar e passavam-se meses, e quando a fechava, já cansada, outros tantos haviam passado.
Sara tinha goelas rugosas, lascadas, moldadas pelo tempo, que embora a preservasse de muitas maneiras, não deixava de passar por ela, castigando-a, como o resto dos mortais.
Mas Sara nunca definhava.
Sara era como um vírus.
Sara era o momento em que a língua do felino toca na sua própria pele vezes e vezes sem conta.
Sara estava enferma de tanto beber o suco da vida.
Sara desfazia-se como um copo de açúcar. Quando lhe tocavam desfazia-se em ardor.
Sara pecava e traía.
Sara era hiperactiva.
Sara tinha um coração que batia tão depressa como um pequeno mamífero em apuros, mas que era tão grande como o de um animal de grande porte.
Sara era um animal, racional e irracional. Sentia dor  prazer, e um misto de culpa com ignorância.
Sara nunca estava bem, a sua ferida era enorme.
Sara tinha um tique nervoso. Abria e fechava o porta-moedas incessantemente.
Sara comia as suas próprias crostas, na esperança de ficar melhor, de esquecer o propósito das mesmas. Do porquê de ali se terem instalado.

Sara não era conformista, mas gostava de ser. Ela acreditava que talvez assim, a sua ferida sarasse.

Monday, May 16, 2011

Eu, breu.


"Tantos carros e nenhum me passa por cima."
Estava tão aborrecido que voltou para casa.
Por lá, o tédio continuava a dominar o ar, embora tivesse deixado as janelas todas abertas de forma a arejar a casa.
Esticou-se no sofá.
De barriga para cima, fixava o tecto, na esperança de ser embalado pelo cansaço de tentar manter os olhos abertos o máximo tempo possível sem os piscar.
Há muito tempo que não estava assim tão aborrecido.
Nada o animava, nada fazia o tempo passar mais depressa.
Na verdade, o dia ao invés de avançar, parecia ficar cada vez mais claro.
"Que tédio." - pensou.
Já havia tomado banho duas vezes, assaltado a sua despensa outras tantas.
A rua não o aliciava, as pessoas não o seduziam.
A televisão e o computador só mostravam o sinal de estática, diziam-lhe os olhos dele.
Enfadonhado começou a observar o seu corpo.
Cada cicatriz, cada sinal, cada veia, cada pêlo, cada desnível de carne, tudo era novo para ele.
Nunca antes havia tomado tanto tempo a olhar para o seu simples corpo.
As peles soltas, os pêlos encravados, os pontos negros, as marcas do sol e da velhice, a marca do relógio, a profundidade do seu umbigo..
Aí começou a indagar sobre o seu interior.
Se conseguisse ver o seu interior, talvez viesse a descobrir um novo mundo e por certo que este monstruoso aborrecimento iria acabar, e a noite iria chegar mais depressa.
Mas tal feito não se cria concebível.
Fechava os olhos mas só via um fundo preto. Às vezes umas listas brancas, mas maioritariamente, tudo preto.
Fechar os olhos obviamente que não iria ajudar. Mas talvez com eles abertos..
Tentou espremer a face o mais perto que conseguia para perto da nuca, mas a única coisa que acontecia, era os seus olhos focarem o nariz, e por vezes conseguir ver um pouco a saliência das suas maçãs do rosto.
"Isto assim não está a resultar. E se abrir a boca?"
Não sendo belfo, seria complicado, mas tentou fazê-lo.
Pegando no lábio inferior, começou a puxá-lo para longe da sua cara, mais longe, mais longe, mais longe, até o fazer tão grande que cobriu a cara!
Olhando para baixo viu tudo escuro, tudo preto. Nem listas brancas havia.
"Deve ser isto a que chamam breu".

Monday, May 09, 2011

um dia pego fogo a esta merda toda

Acendi um fósforo, e peguei fogo a tudo.
Começou tudo a arder.
A casa, as folhas, os meus pés, as minhas unhas, o meu cabelo, a minha cama.
A minha cama parecia um poço de sangue gaseificado.
Longas chamas atingiam o tecto e fugiam para consumir o resto do quarto.
E um silêncio brutal.
Um silêncio tão brutal e um ar tão apático de todos os "objectos" animados e inanimados que o mundo inteiro ao saber desta história, passou a colorir em sua mente, a palavra silêncio de côr preta.
Deixou de haver ar, mas também não sufoquei.
Lentamente observei a tridimensionalidade a desfazer-se em cinzas.
Inspirei tão fundo que senti os pulmões a estalarem e o meu corpo a ficar "desorganizado", tornando-se numa carcaça oca, em que só circulava a aragem fresca de tal cenário.
Tremendo alívio!
Foi tão bom.

Thursday, April 21, 2011

trilhos

"It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes. And that's the day I knew there was this entire life behind things, and... this incredibly benevolent force, that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever. Video's a poor excuse, I know. But it helps me remember... and I need to remember... Sometimes there's so much beauty in the world I feel like I can't take it, like my heart's going to cave in."
in American Beauty

Wednesday, April 13, 2011

Wednesday, March 23, 2011

passos largos e descompensados

Os blocos cimentados com suor, fazem agora suar quem ama.
As estradas calcetadas à torreira do sol, abrem espaço para o sol aquecer os apaixonados.
Salas construídas por solitários, guardam momentos do passado dos presentes, para sempre recordarem.
Cimentam-se pessoas do passado, para um futuro risonho, mas em que o passado teimar em rasgar sorrisos tortos.
Uma data de coisas fantásticas, e incongruências esquisitas.
É o que se vê simplesmente na rua, de um trajecto do trabalho para casa.
É no que se pensa quando se faz tempo para se começar a fazer qualquer coisa.

A prodigiosa jogadora de futebol


- Dizes que não tenho pés de gato para escalar esta montanha.
Mas eu nem sequer sei se a vou subir. Eu só estava a ver.
Dizes que como sempre as mesmas palavras, mas são as únicas que sei cantar, assim como tu, que pintas a tua dôr, sempre do mesmo tom.
Dizes que estou contente com algo que não tenho, mas para mim já ter esse sonho, é meio pedaço trincado.
Dizes que sou desarrumada, que deixo tudo espalhado, mas tu és igual.
Só que tu não deixas que ninguém o veja.
Dizes que ganhei esse vício horroroso de cuspir na água, mas tu só não cospes porque nunca abres a boca.
Eu digo-te: só gostava que deixasses de me acordar às três da manhã para me apontar um dedo que nem sequer é palpável.

És tão parecida com a minha mãe.

- Ai! Dôr de cabeça? Jogo sujo..

Friday, March 11, 2011

frases desfeitas

Palavras leva-as o vento, e guarda-as a memória numa caixa de sapatos.

pontos bufos

Tu não és mau actor, o teu ponto é que fala demasiado alto.

Wednesday, March 09, 2011

não me deixes, nunca

Adoro ver-te correr.
A forma como deslizas neste chão branco, fugindo e atropelando as sombras com as tuas pequenas, rápidas, mas concentradas passadas de côr negra, é fascinante.
Todos os dias me contas uma história nova.
Todos os dias me deixas seguir-te.
Por bons e maus caminhos, mas nunca te esqueces de mim.
Viras a página, mas levas-me contigo.
Corre, corre, corre. Viaja!
Pousas delicadamente nesse chão: branco; sempre limpo; novinho; a estrear; só para ti.
Fazes dele o que queres. Eu em ti não mando nada.
És a única que comanda os meus pensamentos, o que realmente quero dizer.
Ser-te-ei fiel, enquanto a lucidez me permitir.

Sunday, February 27, 2011

O Fogo acabou

"O Fogo acabou."
Por favor, não me digas isso.
"O Fogo a-ca-bou."
Porquê, mas porquê?
Porquê agora? Sem aviso..
Logo agora que eu mais precisava de ti.
Sem ti, não sei mais escrever.
Sem ti, este mar e vento frio perdem todo o encanto.
Sem ti, este mar e vento frio passam de reconfortantes, a demónios que lançam os seus braços e agarram a minha solidão.
Não vim para aqui para estar só.
Não me digas que o fogo acabou.
Nem às pedras da calçada me posso chorar, pois elas riem-se de mim, imóveis, irónicas, como só elas o sabem ser.
Não me digas isso, por favor.
És só tu a minha companhia.
O meu único vício, a minha única droga, não preciso de mais nada.
Não me deixes aqui, preso, agarrado aos meus pensamentos incontroláveis, que só tu sabes amenizar.
Sem ti, este quadro deixa de fazer sentido, perde a beleza.
Sem ti, perco-me nesta areia.
Sem ti, a minha vida pinta-se em tons cinzentos, de cimento.
Não quero voltar, quero ficar aqui.
Estou tão bem aqui.
Não me digas que o fogo acabou.

Mundo cruel. Sentindo-se castigado, volveu à cidade, e enterrou o momento partido, num cinzeiro cheio de beatas.

Wednesday, February 02, 2011

passado e presente

Friday, December 17, 2010

A borracha que apagou, as memórias do meu avô.

Depois de ver seus pais, quem amou demais, e as saudades imortais, à sua espera ali tão perto.
Depois de ver Maria, que jazia, naquele dia, no sofá de sua casa.
Depois de ver Luís, seu petiz, que outrora fora feliz, a lhe ser tirado.
Depois de receber a sua neta, uma míuda um pouco esperta, com uma vida tão incerta, a trazer-lhe rebuçados.
Depois de receber carinhos e postais de natal, brincar não lhe fez mal, a viver na sua terra natal, terra que o viu crescer.
(Da herança, tive esperança, de ficar com a lembrança, do que é ser criança.)

Paz à sua alma, na sua campa não murcharão, as flores da saudade.
Serafim Luís dos Santos
03.02.1910 - 17.12.2005

Wednesday, December 08, 2010

há 9 anos era assim

Sobre um abalo de emoções,
rabisco umas quantas palavras.
Palavras estas, que mais tarde recordarei
e que talvez sinta saudades de..!
Abrir a janela.. receber um abraço..
APAGAR esses gritos que me atormentam de certa forma, e mais tarde me voltam a atormentar...
Queixar-me... e retraír-me.
Afogar-me, sufocar-me, engasgar-me... com as minhas próprias palavras... os meus próprios sentimentos...
As palavras do coração.. coração que sofre porque ama.. odeia porque ama... critica porque ama; não saem, sobre um comando consciente que incorpora a capa da vergonha e falta de coragem...

AI, A DÔR! que devíamos sentir pelos outros que definham e se encontram abraçados pela morte, tão pouco depois de terem sido entregues à vida... e para sempre abraçados...


10.07.01, algures perto da praia de Algés, a observar gaivotas e pescadores.
p.s.: ainda não sinto saudades de..!

Tuesday, December 07, 2010

provérbios figurados

Meti os dedos à boca,
mas nem às pedras da calçada consegui chorar.

Meti os dedos à boca,
mas nem a água bateu, nem a pedra moeu.

Meti os dedos à boca,
mas nem caíu o Carmo, nem a Trindade.

Meti os dedos à boca,
mas nem presunção, nem água benta.

Meti os dedos à boca,
mas nem às paredes confessei.

Meti os dedos à boca,
mas afinal a encomenda era igual ao cabaz.

Meti os dedos à boca,
mas nem a bolsa ficou leve, nem o coração menos pesado.

Meti os dedos à boca,
mas nem pão nem queijo.

Meti os dedos à boca,
mas nem leste escuro, nem sol seguro.

Meti os dedos à boca,
mas nem tudo o que abanou, caíu.

Meti os dedos à boca,
mas nem sequer a voz me doeu.

Meti os dedos à boca,
mas não passei da cepa torta.

Monday, November 15, 2010

esforcemo-nos

"Se não se puder destacar pelo talento, vença pelo esforço."
Dave Weinbaum

Tuesday, November 09, 2010

isto foi assim

foi assim, num ataque de ansiedade, lá p'rós lados de Março, num bar dançante pelas ruas de Lisboa.

a vida boémia tortura-me.
e eu já há algum tempo que a larguei.
mas ela sussurra e ri-se no escuro, pega-me no braço e arrasta-me no meio das multidões, com os seus olhos negros e brincalhões.
geme por mim, tenta-me seduzir.

faz-me lembrar uma mulher morena, de cabelos negros, e olhos castanhos, dóceis, mas sedutores.
curvílinea, que dança com movimentos largos, espaçados, e esbeltos.

como tudo, nunca acabei (o texto).

contextualizações e cenas

contextualizações no blog do ElMau, para fotografias de Henri Cartier Bresson.
uma e outra.
as outras já haviam sido publicadas..

Thursday, November 04, 2010

o melhor amigo do homem

quem é amigo, quem é??
é o ombro...

Wednesday, November 03, 2010

parabéns

parabéns a mim, por mais um ano de vida.

Thursday, October 21, 2010

ouvi dizer

"É melhor escrevermos para nós próprios e não termos público, do que escrever para o público e não nos termos a nós."
Cyril Connolly

Saturday, October 16, 2010

Estado sólido/Eu Lúcida (um acrescento)

"Somos feitos da matéria dos sonhos, nossa vida pequenina é cercada pelo sono."
William Shakespeare

hmmm.. será?

Tuesday, October 12, 2010

Estado sólido/Eu Lúcida


Toco na tua pele, e os meus dedos colam-se aos teus.
Questiono este fenómeno, e tu respondes que é gasoso, como os sonhos.
Feitos de algo que se dissolve, que não é palpável, algo criado pelo inconsciente, que na realidade, não é sólido, nem líquido, mas sim gasoso, como os sonhos.
E eu, lúcida das minhas ideias, nego.
E renego.
E tu questionas o meu estado apreensivo.
Não líquido, mas sólido.
E eu respondo: "Quem me dera voltar aos dias em que se trocavam batatas por couves, e a existência humana era pouco questionada entre os comerciantes e estabelecidos".

Monday, October 11, 2010

O limbo do sentimento ou o melhor e o pior de um mundo.


Às vezes penso, o quão engraçado será trabalhar num aeroporto.
Caras novas todos os dias, novos conhecimentos, que vão e vêm tão rapidamente que mal dá tempo para sequer tecer uma ferida, ou criar uma erupção cutânea.
Poder passar os dias a fantasiar sobre vidas alheias, tentar adivinhar o que fazem, os seus interesses, os pequenos pormenores que os deixam felizes ou que os aborrecem, as suas amarguras, as suas tristezas, o seu propósito de vida, o berço em que foram criados...
Enfim... colorir as sombras (que por mim eventualmente passariam, se ali trabalhasse), com as cores que eu as pinto.
Depois penso, na quantidade de energias e sentimentos que circulam naquele espaço.
As chegadas. A ansiedade, a saudade, a alegria, o amor, o desejo, a paixão, os sorrisos, os choros de felicidade, os abraços, os beijos, os apertos de mão..
As partidas. A ansiedade, a saudade, a alegria, a tristeza, a saudade, os sorrisos nervosos, os choros, os abraços, os beijos, os apertos de mão, os choros, as saudades, o medo.
De um modo global, focar o olhar de "explorador de vidas", apenas em partidas e chegadas mais intensas.
Viver ali a minha telenovela. Assumir as vidas como minhas, as emoções como minhas.
Assumi-las, chorá-las, quer de tristeza, quer de alegria.
Encher-me com isso, como se de um largo copo de café bem quente se tratasse.
Uma emoção reconfortante.
Não há cá espaço para um sentimento de médio valor no meio destas pessoas.
Não há insensibilidades, não há friezas. Nem nos cafés há gelo.
Os olhos são o espelho da alma, não é o que dizem?
Ler tudo isso, e sentir o pior e o melhor.
Não há limbo. Não há limbo no aeroporto. Não há meios termos. E é horrível.
Não gostaria de as ver todos os dias.
Não gostaria de viver nestes dois mundos todos os dias, e sentir que não há um piso mais estável, em que a ignorância, e o só estar, existe.

Fosse eu poeta, fosse eu pintor, fosse eu músico, fosse eu artista.. se calhar tinha ali matéria-prima. Mas não.

Wednesday, October 06, 2010

não x 4 dá sim x 2

não estou bem onde não estou, mas estaria melhor se não estivesse aqui.

Humor cão, Amor cão, O murcão.

Nos dias que correm, conclui-se..

Que o sangue que me sai mensalmente do corpo, me faz questionar mais sobre mim e sobre o que me rodeia, do que o que me corre todos os dias nas veias.

Que as pessoas gostam mais de mim ou me atribuem mais valor quando sou intocável, ou estou menos presente. (O feitiço das medusas vira-se contra o feiticeiro).


E aqui jaz mais uma página do tempo inacabada.

Tuesday, September 14, 2010

o meu sistema nervoso

Sou portadora de um intestino turbulento quando os meus olhos não suam.
As palavras que ecoam no meu pequeno corpo, são interpeladas por vómitos e má disposição.
Saem gritos grotescos em forma de eructações, protestando contra a barreira invisível, que priva as palavras de saírem.
A noite quer-me desperta, e o dia adormecida.
Às vezes há comportamentos no meu corpo que me fazem lembrar o dito "volvo". Mas se a porcaria toda que aqui vai quiser realmente sair, ou sufoco, ou me sufoco.
O meu coração bate tão forte, que vejo a t-shirt a mover-se arritmadamente.
O meu corpo pede-me café, a minha boca pede-me cigarros, a minha cabeça quer dormir, o meu coração quer colo.
Mas no meio disto tudo não quero é nada.

Wednesday, September 08, 2010

pergunto-me outra vez


pergunto-me

The Smiths - Well I Wonder


Well I wonder
Do you hear me when you sleep ?
I hoarsely cry
Why...

Well I wonder
Do you see me when we pass ?
I half die...
Why...

Please keep me in mind
Please keep me in mind

Gasping - but somehow still alive
This is the fierce last stand of all I am

Gasping - dying - but somehow still alive
This is the final stand of all I am

Please keep me in mind

Well I wonder
Well I wonder
Please keep me in mind
Keep me in mind
Keep me in mind

Wednesday, August 04, 2010

eu, tu, ele, nós, vós e eles

se eu estou bem, e tu estás mal, e por média nós estamos mais ou menos.. que verbo é esse?
 
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