Friday, July 01, 2016
Thursday, June 02, 2016
Sangro do nariz
Peguei no filtro e pû-lo na boca.
Peguei na mortalha e aconcheguei-a na palma da minha mão esquerda.
Com alguns dos dedos da minha mão direita abri o saco de tabaco e pousando-o sobre o meu colo consegui ter acesso aos seus finos fios, que desfiz para a cama de papel que jazia na minha mão esquerda.
Para lá, para cá. Em movimentos contínuos e algo descoordenados, consegui formar um tubo cancerígena que depois elevei em direcção aos lábios e lambi.
Lambi de uma ponta à outra orgulhosamente.
Dei o meu melhor, estou certa.
Ouvia as suas unhas a bater no teclado durante este processo todo.
Coloquei o cigarro já feito entre o dedo médio e o anelar, e como que com desprezo estendi-lhe o seu veneno.
Ela estendeu-me os dedos que podia.
Num desprendimento desse olhar de desprezo com a realidade, arrancou-me suavemente o cigarro das mãos e sorveu-o, pousando-o de seguida no cinzeiro.
Ele olhou para mim, mostrando-me as suas mantas cobertas de sangue.
O tubo cancerígena nunca poderia vencer o maior veneno que havia corrompido o seu ser.
Ela.
Peguei na mortalha e aconcheguei-a na palma da minha mão esquerda.
Com alguns dos dedos da minha mão direita abri o saco de tabaco e pousando-o sobre o meu colo consegui ter acesso aos seus finos fios, que desfiz para a cama de papel que jazia na minha mão esquerda.
Para lá, para cá. Em movimentos contínuos e algo descoordenados, consegui formar um tubo cancerígena que depois elevei em direcção aos lábios e lambi.
Lambi de uma ponta à outra orgulhosamente.
Dei o meu melhor, estou certa.
Ouvia as suas unhas a bater no teclado durante este processo todo.
Coloquei o cigarro já feito entre o dedo médio e o anelar, e como que com desprezo estendi-lhe o seu veneno.
Ela estendeu-me os dedos que podia.
Num desprendimento desse olhar de desprezo com a realidade, arrancou-me suavemente o cigarro das mãos e sorveu-o, pousando-o de seguida no cinzeiro.
Ele olhou para mim, mostrando-me as suas mantas cobertas de sangue.
O tubo cancerígena nunca poderia vencer o maior veneno que havia corrompido o seu ser.
Ela.
Thursday, February 18, 2016
A hora da monstra
Estava um frio invernal.
Os copos de vinho vinham-lhe aquecendo as entranhas e o frio da cerveja preparava-se para lhe acalmar a sede. A sede de não se poder continuar a destruir noite adentro.
A noite amarela e fria, com compassos quentes de calor humano e sobre-humano a pairarem sobre a esplanada.
Ao fundo, uma voz. Ao perto, outra.
Ouvia a que estava perto.
Ouvia aquela que lhe falava de aventuras loucas e impossíveis, dignas de filmes de comédias românticas, acompanhantes de luxo com um final honesto e o sumo do que é ser humano.
Ouvia e ria-se. Sorria muito, acenava com a cabeça e opinava.
Ao longe, ouvia a sua voz.
Aquela que a mandava calar, levantar-se da mesa, entornar a cerveja goela abaixo, caminhar até ao Tejo e descê-lo, com pedras da calçada nos bolsos.
Desencorajada pela sua própria essência, rumou a casa.
Lá, estava um calor infernal.
Os copos de vinho vinham-lhe aquecendo as entranhas e o frio da cerveja preparava-se para lhe acalmar a sede. A sede de não se poder continuar a destruir noite adentro.
A noite amarela e fria, com compassos quentes de calor humano e sobre-humano a pairarem sobre a esplanada.
Ao fundo, uma voz. Ao perto, outra.
Ouvia a que estava perto.
Ouvia aquela que lhe falava de aventuras loucas e impossíveis, dignas de filmes de comédias românticas, acompanhantes de luxo com um final honesto e o sumo do que é ser humano.
Ouvia e ria-se. Sorria muito, acenava com a cabeça e opinava.
Ao longe, ouvia a sua voz.
Aquela que a mandava calar, levantar-se da mesa, entornar a cerveja goela abaixo, caminhar até ao Tejo e descê-lo, com pedras da calçada nos bolsos.
Desencorajada pela sua própria essência, rumou a casa.
Lá, estava um calor infernal.
Thursday, November 12, 2015
O dia em que a minha cabeça me obrigou a fazer uma redacção sobre "a noite".
A noite mostra-me as cicatrizes das pessoas.
A noite conta-me a história sobre como lhes apareceram essas cicatrizes.
A noite põe-me numa maca de hospital e leva-me pelos corredores cheios de luzes artificiais, paredes brancas, pessoas chorosas e cheiro a soro, para que eu assista em primeira mão ao nascimento dessas cicatrizes.
A noite mergulha nessas cicatrizes e lê-me poemas conceituados em voz alta, poemas que eu até então desconhecia.
As cicatrizes mergulham na noite e banham-se em água salgada de rostos e de rios.
A noite tira-me tempo ao dia para ler livros e me cultivar, mas conta-me histórias na primeira pessoa e é por isso que eu gosto dela.
Wednesday, March 25, 2015
Aspirações expiradas
No primeiro dia do equinócio da Primavera resolvi descer de terras mouras até ao largo Manuel da Fonseca, bebericar um chá, fumar uns cigarros e escrever na paz do Senhor.
Esqueci-me foi que neste primeiro dia não só brotam os botõezinhos de rosa e não são só as andorinhas que por aí se pavoneiam.
Dou por mim numa sexta-feira perto das 17h parecendo que já são perto das 22h e que a super-lua fez efeito, até porque o pátio está cheio de aves raras e cães a uivar.
Sou um lobo solitário de tecnologia enfiada nos ouvidos, observado pelo octogenário que guarda o pátio tão bem como a comida que tem há vários dias nas bochechas.
Já não existem espaços cheios em Lisboa que estejam vazios de vida.
Ou se calhar foi a vida que renasceu hoje e levou os restos mortais da cidade ao seu próprio entrudo que decorreu na semana passada.
Finda assim mais uma semana e com ela este meu cigarro.
Friday, March 13, 2015
A minha casa está vazia.
O amor da minha vida faria dezanove anos hoje.
Faz um ano e pouco mais de um mês que me deixou.
E eu não a queria deixar.
Dói tanto que nem as palavras consigo vomitar.
Já as escrevi mas não chegavam.
Não se percebe esta matemática de um maior curto espaço de tempo sem ela ser tão mais gigante do que a vida que viveu a meu lado.
Dava os dias de sol que não gozei, e os dias de chuva em que me queixei.
Dava os dias de loucura e os de insanidade.
Dava as palavras que deitei à rua, as palavras que doei a quem não as aproveitou.
Dava a atenção que entreguei a quem a descurou.
Dava as peles que roí nas horas de ansiedade, as unhas que cortei, as dela e as minhas.
Dava o meu sangue por ela, para que pudesse circular mais um ano, e no ano que vem dava tudo outra vez.
Dava estas lágrimas que deito para encherem o seu corpo de vida, com a mesma vida linda que ela me deu.
Dava tudo, foda-se.
Era a minha desculpa para não querer envelhecer. Agora já não tenho.
Envelheçamos então.
Saturday, January 10, 2015
k.
Fevereiro trouxe o frio
E levou-me o calor.
Fevereiro trouxe o frio
E roubou-me o meu amor.
Por Fevereiro não tenho respeito,
Pois tirou-me o calor do peito.
Por Fevereiro não tenho respeito,
Pois deixou-me o coração desfeito.
Fevereiro voltará sempre
Para me lembrar que te levou.
Fevereiro só não deixa doente
Quem nunca assim amou.
Por Fevereiro sinto ódio,
O mesmo que te põe num pódio.
Em Fevereiro lembro com desprimor,
A morte do meu amor.
Campos verdes de asfalto
Estou para aqui com uma guerra com as palavras e comigo própria.
Parece que as estendi ao vento num relvado qualquer e agora perdi o norte.
Como se estivesse estacionado o carro num parque de estacionamento com sete níveis e agora não o consigo encontrar.
Estava lá tudo o que eu queria dizer.
Está lá tudo o que eu estou a sentir.
Tenho algumas memórias do que estendi mas perco a concentração muito facilmente, e na altura devo ter prestado mais atenção às cores das molas do que propriamente aos tecidos em si.
Vim procurá-las no meio deste frio de Inverno dentro de um copo de vinho quente e de olhos inchados cobertos de tinta preta. Já ofereci um cigarro ao meu ambiente próprio e umas rodelas de chouriço ao estômago para alinhar os chacras necessários para o funcionamento da minha bússola interior, mas daqui ainda não consigo avistar esse relvado.
Talvez seja das luzes ofuscantes ainda de Natal ou dos Carlos todos que agora por aí apareceram.
Talvez seja do frio que gela partes do meu corpo que só passado três décadas descobri que tinha.
Talvez seja desta música que passa na rádio que é igual à de ontem é igual à que vai passar amanhã.
Talvez seja o meu músculo destreinado que já se tornou em gordura e agora não consegue voltar à sua forma inicial.
Talvez tenha sido este homem que me veio agora pedir indicações sobre o local onde parqueou o seu carro e com ele para além de trazer um pouco mais da ironia de eu não saber do meu, levou também mais uns metros de relva que eu já havia galgado.
Talvez elas não queiram sair.
Talvez eu tenha que ser assim.
Talvez eu seja assim.
Talvez para a próxima vez eu esqueça os campos verdes e estenda a roupa no asfalto.
Tuesday, August 26, 2014
A imagem das palavras
"Uma imagem vale mais do que mil palavras", dizem que disse Confúcio, um filósofo chinês.
Nas bocas do mundo andou esta frase, em troca de fluídos se propagou e começa hoje a ser o mote dos jovens portadores, descobridores e fãs das novas tecnologias.
Hoje muita gente fotografa e pouca gente sabe escrever.
Hoje muita gente se agarra ao provérbio numa mão e ao smartphone na outra, esquecendo o palavreado bonito que serviria para descrever um final de tarde passado entre amigos, um cão desconhecido que rouba as bolas todas da praia, a poesia de um copo de vinho entornado...
As letras são deixadas ao abandono em paredes, murais, pinturas quase rupestres que reciclam as mesmas palavras vezes sem conta, rodando entre elas algumas vezes para fazer frases ligeiramente diferentes umas das outras.
A palavra "coração", outrora de tamanha dimensão, é agora substituída por um símbolo de "maior que" seguido do número três formando assim o desenho de um coração deitado que pode facilmente ser confundido com um cone de duas bolas ou com um belo rabiosque suportado por umas finas pernas.
É também substituída por um gesto com ambas as mãos unidas em forma da letra "C", uma virada para dentro e outra virada para fora, formando assim um coração (como tem vindo a ser popularmente desenhado), que pode facilmente ser confundido com dois curtos pescoços de cisnes ou com o manifesto e/ou desejo de se agarrar em dois objectos fálicos em simultâneo.
E o tempo que gastei a escrever isto em vez de fotografar?
Pois é, arrumava-se o assunto logo num instante.
E nestas letras pouco ou nada de poesia se encontrou.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se não as repetirmos mil vezes.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se nos transmitir uma emoção incapaz de ser traduzida pelas mesmas.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se o conteúdo retratado tiver mais do que mil palavras.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se tivermos um quadro valioso na mão e o quisermos trocar por um pedaço de pão.
Uma imagem (quase) nunca valerá mais do que mil palavras.
A não ser que não consigamos comunicar (por que razão seja) sobre essa imagem, ou se a preguiça tomar conta da nossa vergonha, vontade e dicionário.
Tuesday, July 08, 2014
Entre aspas e desculpas
Hoje não é um bom dia
para escrever porque estou menstruada.
Nunca é um bom dia
para fazer qualquer coisa quando se está menstruada, sem ser ficar
no sofá a beber chá, fumar cigarros, ver televisão sem
importância, com gatos ao colo e casualmente uma barra ou duas de
chocolate.
Vê-se um filme. Tem-se
uma ideia arrebatadora e muito crítica em relação ao mesmo.
Vê-se em período
normal. Fica-se com uma ideia completamente diferente.
Lê-se um livro. A
mesma coisa.
Ouve-se uma música. A
história repete-se.
Termos que nos vestir é
um drama, porque tudo fica mal e a barriga está inchada.
O cabelo está uma
miséria e a cara transfigurada.
As dores só são
suportáveis depois de enchermos o corpo de drogas mas ainda assim há
sempre uma moínha chata que só amaina quando voltamos ao sofá.
A apatia é incrível,
a choradeira e a euforia também.
Não é um bom dia para
escrever, porque vou escrever sobre coisas que só hoje vou dar
importância, que só hoje sei que têm importância, que amanhã não
terão importância nenhuma.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque estou com o tempo contado.
Nunca é um bom dia
para fazer qualquer coisa quando temos o tempo contado sem ser quando
temos o tempo contado para não fazer nenhum.
As pedras da calçada
fazem tremer o autocarro, os carris o eléctrico, e a maresia o
barco.
A caligrafia sai feia e
as linhas deixam de ser direitas. Passado uns dias se vou a ler o que
escrevi, custa-me o dobro a perceber o que lá está.
Se estás no café com
o tempo contado, aparece sempre alguém.
Se estás a trabalhar,
aparece sempre alguém.
Se vais à
casa-de-banho, o teu organismo conta o tempo por ti.
Não é um bom dia para
escrever, porque vou escrever sobre coisas rápidas, sobre ideias que
voam soltas na minha cabeça, atirá-las para dentro de uma lata para
mais tarde dar continuação. E aí já perdi o fio à meada.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque fiquei sem tabaco.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque morreu alguém que eu conhecia.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque o dia me correu muito bem.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque estou cansada.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque está sol e vou-me perder a beber refrescos na
esplanada.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque está a chover e vou-me irritar a cada gota que
cair perto da minha janela.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque acabou o meu incenso.
Hoje não é um bom dia
para escrever porque não encontro o meu disco favorito.
Nunca é um bom dia
para escrever ou fazer qualquer coisa que não seja do nosso desejo
ou impulso directo com destino ao futuro.
A partir do momento em
que predestinamos que temos que escrever ou fazer qualquer coisa, é
impreterível a concentração, o juízo e a responsabilidade.
A partir do momento em
que o começamos a fazer é impossível voltar atrás.
A partir do momento em
que decidimos começar a escrever cria-se um vício no corpo.
Dá-se um mimo ao
escape e à forma de expressão mais intíma e temos que continuar a
tocar em todas as teclas do piano até a melodia estar completa.
Quando se deixa de
escrever, a mente começa a acumular palavras, letras e ruídos que
mais tarde ou mais cedo se desenvolvem numa avalanche de dores de
cabeça e confusão mental.
Por isso escrevam,
berrem, dancem, desenhem, ou não façam nada.
Um bom texto, um bom
berro, uma boa dança, um bom desenho a partir do momento em que o
corpo lhes sente o cheiro necessita de crescer e ser desenvolvido
dia-a-dia.
Liberta a mente do
stress rotineiro e desentope as artérias do pensamento.
É como um bom peido
depois de uma série de cólicas acumuladas.
Deitem tudo cá p'ra
fora.
Deixem fluir os vossos
gases em prol do vosso bem.
Sunday, March 16, 2014
Sonhos biodegradáveis e a doçura do café
Deixei de pôr açúcar no café.
Descolei as solas dos pés do chão ardente do Inferno, larguei os sorrisos cozidos na face das noites passadas em branco, deixei de lado o copo meio vazio, deixei as preocupações e as indignações das últimas décadas em memórias que o tempo engoliu.
Deixei para trás os sonhos biodegradáveis e a doçura do café.
Caminhei de peito erguido com os braços atados à minha consciência que me elevava a cabeça para o céu e as pernas atadas ao meu ventre que me ligava à terra durante quilómetros até o meu corpo ganhar uma nova forma estática, firme e hirta de quem caminha com confiança.
Passei dias a olhá-lo ao espelho e a confiança começou a ser engolida do interior para o exterior.
Uma luta nunca é fácil, por menos luta que seja.
Uma escolha nunca é fácil, por menos escolha que seja.
Uma memória nunca é fácil de manter ou esquecer, por menos memória que seja.
Ao nosso redor celebram-se aniversários de nascimento, de morte, de relacionamentos amorosos, de viuvez, de mudanças de vida, de tudo um pouco.
Fazem-se tatuagens, piercings, cortam-se cabelos, muda-se de casa, muda-se de nome, muda-se de visual, muda-se de amigos, muda-se o tipo de letra, ouvem-se outras músicas, provam-se novos sabores.
“Este foi o dia em que tudo mudou.”
Acendem-se velas, deitam-se flores, oferecem-se umas, recordam-se outras tantas.
Tatuam-se datas, tatuam-se caras, tatuam-se flores.
Queremos marcar de alguma forma o que nos foi importante, o que nos é importante, e quando foi o dia em que decidimos que queríamos de alguma maneira marcar na nossa pele a importância que isso teve no nosso caminho enquanto pessoas.
E eu decidi deixar de pôr açúcar no café.
Decidi isso, após anos a vir a reduzi-lo.
Agora nem tão pouco lhe ponho açúcar, pois é a única amargura na vida que quero sentir.
A minha pele engole agora todo o açúcar que precisa por outros meios, e isso tatua-se na minha leveza de espírito todos os dias.
Tuesday, February 11, 2014
Gatos sem manchas nas unhas
Não tenho a certeza se é a memória ou se são as pessoas que são como as manchas que por vezes nos aparecem nas unhas.
Convivemos com elas até as unhas crescerem, sempre indagando como foram lá parar e quando desaparecerão, mas quando desaparecem esquecemos-nos delas tão depressa que é como se nunca tivessem existido. Até passado uns anos voltarem a aparecer.
Talvez seja a importância que têm na nossa vida que é passageira. Talvez seja a maneira como a sociedade nos ensina a dar-lhes importância. Talvez seja a importância que achamos que essas pessoas nos deram que nos manipula a pensar que é passageira mesmo podendo não ser.
A mim, algo me leva a crer que são quase todos passageiros, e que com uns e outros podemos aprender algumas coisas e não nos devemos deixar levar pelo ímpeto de querer fazer uma vida paralela com toda a gente com que nos cruzamos, em conversas de café e longas viagens de autocarro.
Às vezes gostava de ter a memória de uma criança, como uma vez descrevi sobre as suas aventuras na praia. Brincam com o seu novo melhor amigo, mas no dia seguinte há outro que cresce numa outra onda que se aproxima e que nos fará sorrir nessa nova tarde, e assim sucessivamente.
Se calhar a minha sede de conhecer e compreender os humanos será tão maior que a minha inocência que não consigo separar o real do surreal, sendo o surreal a minha noção do que as pessoas pretendem umas das outras e o real o que elas pretendem mesmo.
No fundo no fundo, o que eu acho mesmo é que a busca de um porquê que se inicia em muito novo, e que a busca de uma explicação que se inicia quando nos explicam o significado da palavra fé, é que são as causas deste nosso questionamento todo e a razão para se perder tanto tempo com pensamentos redundantes que nos ocupam o tempo quando poderíamos estar a usufruir do nosso bem estar de uma maneira muito mais simples.
Daí por vezes preferir ter nascido um gato.
Monday, December 02, 2013
Hélder, o rei das palavras
Hoje fui ao dentista de manhã.
A caminho do dentista, faltando ainda uns 5 minutos, resolvi sentar-me num banco no jardim do Príncipe Real e fumar um cigarro.
Sentei-me, enrolei-o, acendi-o e tirei o meu caderno e caneta da mala.
Comecei a escrever umas quantas parvoíces sobre o que via, o que não via, o que me lembrava, os cheiros e os sons.
Até que fui abordada por um homem, e parei de escrever.
Disse-me bom dia e perguntou se me podia declamar um poema que tinha escrito.
Chamava-se Hélder e tinha por volta de uns 50 anos.
Era um sem-abrigo e em vez de arrumar carros como os outros que rodeiam o jardim, vendia poemas. Explicou-me que pedia a amigos para os passar a computador e os imprimir numa casa de fotocópias ali no largo.
Pedia 2 euros por cada poema, e gostava de os declamar.
Declamou-me um primeiro, com muita emoção.
Explicou-o e declamou-me um segundo.
Comprei o primeiro, fui à consulta e prometi-lhe que a seguir ía ter com ele novamente.
Saí da consulta, procurei nos bancos do jardim e lá estava ele.
Quando me viu fez um sorriso inesperado.
"Voltaste!"
Sim, voltei, como tinha prometido.
Disse-me que era a primeira pessoa que lhe tinha comprado um poema fazia já algum tempo. As outras pessoas apenas passavam por ele e diziam que não estavam interessadas.
Já não conseguia declamar mais, estava frio e a voz dele já estava cansada.
Deu-me outro poema a ler, desta vez sobre um turista em Lisboa.
Mais uma vez me fascinou esta personagem com quem me havia cruzado numa Segunda-feira de manhã, perdida no meio do jardim do Príncipe Real entre a feira de antiguidades e o quiosque chique.
Uma antiguidade chique, o Hélder, um sem abrigo com um coração romântico.
Comprei-lhe mais um poema.
Este era sobre a Mona Lisa. Falámos imenso sobre ambos os poemas, ou melhor, falou ele. Eu estava com um sorriso parvo na cara a pensar na quantidade de pessoas bonitas e interessantes que há espalhadas pela cidade sem que nos consigamos aperceber disso.
Despedi-me dele e prometi-lhe que na minha próxima consulta o visitaria. Deixou o contacto no fim das folhas e disse-me que aceitava encomendas de poemas.
Este chama-se "Amoreiras", e segundo o Hélder, é um lembrete para todos os homens sobre a beleza das mulheres, a salvação do casamento e um mote para um crescimento na natalidade, pois já não se vêem grávidas e como chegámos à conclusão: "ou estão todas escondidas em casa durante a gestação, ou não as há".
Amoreiras
"Árvore frondosa
Teu nome evoca Amor
Frutos suculentos, boníssimos.
Das folhas, larvas produzem seda.
Fina, transparente.
Cobres escultural corpo
Contornos sinuosos, sugestivos, excitantes
Mamilos, salientes, intumescidos.
Dieta à base de Amora
Fizeram de ti, símbolo do Amor e Beleza.
Eva e a maçã, foi pecado
Tu mulher, da amora degustaste.
Saciaste desejo
Ignoravas poderoso efeito
Anatómico da Amora
Bela, sensual, sexy.
Homem algum se liberta, atracção exaurida
Força centrípeta, és a raínha.
Seda transparente, leve vaporosa, molda o corpo escultural
Activas testosterona, impossível resistir.
Depositas semente da vida
Ovário acolhedor
Nove meses de gestação
Depois
Dieta à base de Amora
De seda fina, transparente
Cobres teu níveo corpo escultural
Agora que és mãe
Estás na plenitude sexual
Amora põe-te mais quente
Emocional, sexualmente
És uma brasa
Poetas, escultores, pintores
Por ti foram inspirados
Enalteceram, enobreceram, dignificaram
Tua beleza
Comparada de Afrodite
Será que a dieta da Deusa do Amor
Era à base de Amoras?
Tu mulher
Réplica de Afrodite
Hoje estás boa, quente
Nos ovários incubarás
A semente do Homem."
Hélder Couto
Fevereiro 2013
Monday, November 25, 2013
Eu escrevo, se tu desenhares.
Tenho saudades de
pequenos momentos da minha infância que não me lembro de ter
vivido.
Tenho pena de não
poder viver com esta memória de adulto, as experiências de criança.
Tocar em coisas pela
primeira vez, ver sítios pela primeira vez, interagir com outro ser
humano sem ser balbuciando pela primeira vez, do meu primeiro sonho,
da minha primeira tristeza, do meu primeiro adeus.
Há muitas coisas
preciosas que as crianças vivem e que nunca, mas nunca, se vão
lembrar. Essas memórias ficarão apenas cravadas junto das rugas que
irão nascer uns anos mais tarde perto dos lábios e das cavidades
oculares.
A inocência, a curta
memória e o desprendimento que lhes assiste em tão tenra idade, não
lhes dá espaço para sonharem e viverem num “se” que
poderia haver no dia, ou momento seguinte.
Fascinar-me-ia poder
reviver um dia de praia, enquanto escoltada pelos meus pais. A
alegria de correr na areia, de mergulhar nas ondas do mar como se
fosse a melhor coisa do mundo (prazeres de que ainda desfruto com a
mesma intensidade), e brincar com outras crianças como se nos
conhecêssemos há muito tempo.
“O que estás a
fazer?”
“Um castelo que
tem uma piscina à frente.”
“Posso brincar
contigo?”
E sem mais palavras,
brincávamos a tarde inteira até que um dos nossos pais nos viria
encher a cara de creme protector, pôr um panamá na moleirinha e
comunicar-nos que não tarda nos íamos embora que já estava a ficar
tarde. Naquele momento a única coisa em que pensávamos era em fazer
uma birra daquelas pois não percebíamos o porquê de termos que ir
embora, quando estávamos no melhor sítio do mundo, a brincar com a
criança mais fixe do mundo, e o amanhã e o depois, eram conceitos
que ainda não percebíamos. Daí até começarmos a choradeira era
um instante. Depois vinha o outro pai que pegava na outra criança e
nós só dizíamos um adeus despreocupado como se apenas nos
tivéssemos cruzado na fila dos gelados ao contrário de termos
partilhado uma tarde de intimidade infantil.
Depois crescemos.
Crescemos e a nossa
inocência vai por água abaixo, os nossos conceitos ganham corpo, e
as nossas decisões face às outras crianças têm obrigatoriamente
que mudar.
Já quase ninguém se
lembra dessas tardes na praia. Já ninguém quer brincar mais a isso.
Agora queremos viver descansados e ter a nossa felicidade em ver as
nossas crianças a brincar.
Custa-me desprender
disto tudo.
Saio para a rua e
observo os olhos das outras crianças agora adultas. Brinco com elas,
e se alinharem na minha brincadeira, visto logo o meu fato-de-banho e
corro com elas até à água.
Se não as encontrar no
dia seguinte, agora sim, agarro-me aos “ses”.
Friday, November 08, 2013
Nalgas de gaivota
Estava na praia, deitada à espera do pôr-do-sol de papo para o ar, quando vejo um bando de gaivotas a voarem na minha direcção.
- Se alguma destas cagar em cima de mim, jogo no Euromilhões - disse eu em voz alta.
As pessoas riram-se entredentes.
Eram umas 18 gaivotas.
Sobrevoavam acerca de uns 20 metros de altura de nós.
Ninguém estava a prestar atenção a não ser eu. Estava tudo ocupado nos seus tempos livres, passatempos, hobbies, a jogar jogos no telefone, a ler livros, a ouvir música, a enviar mensagens.
A quinta gaivota abriu bem as nalgas e com um tiro certeiro sujou-me a coxa direita.
Num misto de nojo, espanto e alegria dei um berro que virou todas as cabeças p'ra mim.
Tal qual um bébé recém-nascido imita as expressões faciais dos pais, todos ao meu redor imitaram os meus sentimentos de nojo, espanto e alegria.
Corri para a água neste misto de emoções e mergulhei simultaneamente nas ondas e nos meus pensamentos.
Se ganhasse o primeiro prémio poderia finalmente comprar uma passagem e viajar até ao lago onde as medusas não me podem ferir e apenas ser admiradas, que é exactamente o que elas fazem com os humanos, pois temem-nos.
Saí da água tão depressa para apenas me aperceber que era Sexta-feira e que já passava das 20h00.
A minha última hipótese de jogar teria sido até às 19h00.
Escolhi os primeiros números que me vieram à cabeça e apontei-os num papel. Estrelas incluídas.
Mais tarde, já em casa, obriguei toda a gente a esperar que uma substituta da Marisa Cruz me viesse dizer se eventualmente poderia ter ganho algum prémio.
1, 2, 3 números certos e já toda a gente na sala começava a tremer.
5 números e 2 estrelas depois e o meu melhor enchorrilo de asneiras começava a ser debitado.
Quem não tinha percebido que eu não havia realmente jogado, abanava as cervejas, despejando espuma por cima uns dos outros, com se fosse o champanhe dos pobres.
Hoje em dia, os meus mergulhos já não são tão relaxados como eram.
Mergulhe eu numa ou noutra direcção e já não é só o mar que me banha.
São também as fezes luminosas de uma gaivota querendo viajar comigo.
Friday, October 25, 2013
Abraços líquidos
Podia não ter nada, mas se tivesse a ti, sentir-me-ia completa.
Quando os meus lábios tocam no teu corpo e envolves a minha boca com o teu toque quente, sinto a minha língua a ser amada como se de o órgão ou parte mais bonita do corpo, fosse a que ostento.
Agarras-me nas costas e apertas-me o coração com uma delicadeza suprema que quase me faz gemer em público.
E gemeria, não fossem estes olhos quadrados à minha volta à espera de encontrarem mais um louco neste mundo que lhes possa hipoteticamente justificar a sua existência insana que julgam (mas temem) ser única.
Por esta altura já o meu coração bate mais desordenadamente.
É altura de parar de falar de ti e de te abandonar, despido, junto a estes outros loucos.
É que todo o chá contém um pouco de cafeína e o meu fraco coração não me permite consumir tanta emoção assim.
Latas novas
Peguei nos papelinhos todos que andavam perdidos em bolsos de calças e casacos, arranjei uma lata de feijão vazia e guardei-os todos lá para um dia em que tivesse paciência de os rever e repensar nas palavras que p'ra lá tinha atirado.
Hoje, ao ler alguns, encontrei um que tinha algo escrito que achei por bem colocar neste blog, pois acho que é a sua cara.
"O amor é como o olho do cu. Cada um tem a sua opinião."
Friday, June 21, 2013
Há revolta no cais
Há revolta no meu cais.
Há revolta nas minhas hormonas, há revolta no meu ego.
Eu detesto o ego, e detesto que haja um "meu ego".
Mas o meu ego hoje revoltou-se, e eu sinto-me com hormonas masculinas, daquelas que precisam de se exibir em público.
Sinto-me com hormonas adolescentes, daquelas que precisam de berrar e chorar no pátio da escola.
O mais engraçado é o ego sentir-se ferido por existir, e a única maneira de se conseguir remediar de se sentir ferido e culpado por se sentir e por existir é tornar-se ainda mais evidente.
E aqui vos escrevi eu.
O ego desta miúda que está a beber um chá de camomila e a ver os dedos a soltarem-se por caminhos que não sabe bem tornear.
E curiosamente não é o chá de camomila que a vai deixar mais tranquila, mas sim o que o ego lhe se escreveu.
A mente mente e o ego é somente o que a mente lhe mente.
Há revolta nas minhas hormonas, há revolta no meu ego.
Eu detesto o ego, e detesto que haja um "meu ego".
Mas o meu ego hoje revoltou-se, e eu sinto-me com hormonas masculinas, daquelas que precisam de se exibir em público.
Sinto-me com hormonas adolescentes, daquelas que precisam de berrar e chorar no pátio da escola.
O mais engraçado é o ego sentir-se ferido por existir, e a única maneira de se conseguir remediar de se sentir ferido e culpado por se sentir e por existir é tornar-se ainda mais evidente.
E aqui vos escrevi eu.
O ego desta miúda que está a beber um chá de camomila e a ver os dedos a soltarem-se por caminhos que não sabe bem tornear.
E curiosamente não é o chá de camomila que a vai deixar mais tranquila, mas sim o que o ego lhe se escreveu.
A mente mente e o ego é somente o que a mente lhe mente.
Thursday, May 30, 2013
As cores da revolta
Preto é a cor da revolta dos recém-nascidos, que são brutalmente arrancados das barrigas das mães para um ambiente frio e pouco prometedor, abrindo seus fortes pulmões e berrando tão alto, que se torna impossível deixar quem os trouxe, de olhos abertos por muito tempo, como um espirrar sem abrir os olhos.
Castanho é a cor da revolta para as crianças que pegam nas suas fezes e as espalham pelas paredes numa tentativa de chamar a atenção dos pais, por não saberem exactamente como se comportar num mundo maioritariamente habitado por adultos.
Vermelho é a cor da revolta para os corpos femininos que na puberdade se esvaem em sangue querendo-se tornar em corpos torneados, esbeltos, com ancas parideiras e curvas apetecíveis, fazendo as delícias do acasalamento.
É o sangue que se vai sucumbir em tentação, como a maçã que Eva deu a Adão.
Dourado é a cor da revolta para os pobres que se vêem ricos rapidamente ou que o querem parecer, como aqueles que vivem um Inverno infeliz e choroso trancados entre quatro paredes, e que quando o Sol começa a brilhar, se enfiam em solários procurando o tom de pele dourado de quem passou um Inverno sem preocupações monetárias.
Roxo é a cor da revolta para a população que alimenta pombos com milho da mesma cor para que caiam redondos no chão, projectando nestes pobres animais a revolta que sentem pelas verdadeiras ratazanas que governam o seu país.
Verde é a cor da revolta para as máquinas conscientes, construídas pelo homem para que eles vivam num mundo cómodo e acomodado, e simplesmente deixam de funcionar, exibindo o resto de sua vida apenas a beleza exterior da sua carcaça.
Branco é a cor da revolta para o ensaio final de uma vida.
É a ausência de todas as cores. A ausência de todas as variações e junções de cores entre o preto; o castanho; o vermelho; o dourado; o roxo, o verde e todas as outras.
É a cor do feto que não entende, da criança que não percebe, da garota que não quer sofrer, da futilidade que começa a aparecer, da crucifixação do mais fraco, da máquina que não quer mais bater.
É a cor da revolta da luz que arde no fundo do túnel engolindo o humano e cuspindo-o novamente para o preto, até que aprenda a viver sem cores, flutuando apenas num mundo ideal.
Castanho é a cor da revolta para as crianças que pegam nas suas fezes e as espalham pelas paredes numa tentativa de chamar a atenção dos pais, por não saberem exactamente como se comportar num mundo maioritariamente habitado por adultos.
Vermelho é a cor da revolta para os corpos femininos que na puberdade se esvaem em sangue querendo-se tornar em corpos torneados, esbeltos, com ancas parideiras e curvas apetecíveis, fazendo as delícias do acasalamento.
É o sangue que se vai sucumbir em tentação, como a maçã que Eva deu a Adão.
Dourado é a cor da revolta para os pobres que se vêem ricos rapidamente ou que o querem parecer, como aqueles que vivem um Inverno infeliz e choroso trancados entre quatro paredes, e que quando o Sol começa a brilhar, se enfiam em solários procurando o tom de pele dourado de quem passou um Inverno sem preocupações monetárias.
Roxo é a cor da revolta para a população que alimenta pombos com milho da mesma cor para que caiam redondos no chão, projectando nestes pobres animais a revolta que sentem pelas verdadeiras ratazanas que governam o seu país.
Verde é a cor da revolta para as máquinas conscientes, construídas pelo homem para que eles vivam num mundo cómodo e acomodado, e simplesmente deixam de funcionar, exibindo o resto de sua vida apenas a beleza exterior da sua carcaça.
Branco é a cor da revolta para o ensaio final de uma vida.
É a ausência de todas as cores. A ausência de todas as variações e junções de cores entre o preto; o castanho; o vermelho; o dourado; o roxo, o verde e todas as outras.
É a cor do feto que não entende, da criança que não percebe, da garota que não quer sofrer, da futilidade que começa a aparecer, da crucifixação do mais fraco, da máquina que não quer mais bater.
É a cor da revolta da luz que arde no fundo do túnel engolindo o humano e cuspindo-o novamente para o preto, até que aprenda a viver sem cores, flutuando apenas num mundo ideal.
Não sejas mau p'ra mim
Quem poderemos afinal denominar de más pessoas?
Serão aquelas que passaram uma vida inteira praticando o mal contra o mundo e contra todas as outras pessoas que o habitam, que as rodeiam?
Ou serão as pessoas que acham plausível que as más pessoas sejam condenadas por todo o mal que fizeram, praticando elas assim um outro tipo de maldade?
Devemos seguir o profeta e virar a outra face, ou devemos vestir a nossa melhor barba, calçar as nossas botas mais violentas e fazer jus ao provérbio "olho por olho, dente por dente"?
Acho que o que poderia acontecer às más pessoas seria viverem felizes para sempre.
Se isso seria mau ou bom para elas, é um assunto filosófico a ser discutido num dia em que tanto tu como eu tenhamos tempo, paciência, coragem e honestidade para o discutir.
As más pessoas hão de ter uma boa justificação para o serem.
Mas como há um rol gigante do que podemos considerar ser uma má pessoa, tendo em conta que pode ser uma pessoa que pratica o mal ou uma pessoa que não está bem construída para viver em sociedade e sem egoísmos, concentremo-nos nesta última.
Então e má pessoa porquê?
Porque não poderá o final dela ser viver feliz para sempre, quando passou a vida inteira passando por cima dos outros para ver os seus objectivos concluídos, os seus sonhos atingidos, a sua vida com um propósito?
Porque não merecem as más pessoas a eterna felicidade quando passaram por tantas línguas afiadas, tantas noites mal dormidas, rugas mal preenchidas, passados mal paridos, dias tão cinzentos?
Quando trabalharam arduamente para fazer feliz a única pessoa que realmente lhes interessa, mesmo descurando o facto de se amarem a si próprias ou não?
Porque não poderão estas más pessoas se juntar a todas as boas pessoas no paraíso vivenciando com essas outras pessoas a felicidade pré término de vida?
Não será já justamente um castigo a sua vida que foi tão vilmente vivida ter um término?
Não será já um castigo a entrada numa felicidade a que não estão habituados sem esforços?
Não será essa mudança e a reflexão eterna sobre os caminhos que palmilharam para atingir a felicidade uma penitência?
Será de todo possível as pessoas viverem felizes para sempre?
No final de contas o que interessa é esquecer a quantidade e a qualidade e deixar apenas os adjectivos.
No final de contas já todos fomos más pessoas, e ainda assim, todos merecemos viver felizes para sempre.
Serão aquelas que passaram uma vida inteira praticando o mal contra o mundo e contra todas as outras pessoas que o habitam, que as rodeiam?
Ou serão as pessoas que acham plausível que as más pessoas sejam condenadas por todo o mal que fizeram, praticando elas assim um outro tipo de maldade?
Devemos seguir o profeta e virar a outra face, ou devemos vestir a nossa melhor barba, calçar as nossas botas mais violentas e fazer jus ao provérbio "olho por olho, dente por dente"?
Acho que o que poderia acontecer às más pessoas seria viverem felizes para sempre.
Se isso seria mau ou bom para elas, é um assunto filosófico a ser discutido num dia em que tanto tu como eu tenhamos tempo, paciência, coragem e honestidade para o discutir.
As más pessoas hão de ter uma boa justificação para o serem.
Mas como há um rol gigante do que podemos considerar ser uma má pessoa, tendo em conta que pode ser uma pessoa que pratica o mal ou uma pessoa que não está bem construída para viver em sociedade e sem egoísmos, concentremo-nos nesta última.
Então e má pessoa porquê?
Porque não poderá o final dela ser viver feliz para sempre, quando passou a vida inteira passando por cima dos outros para ver os seus objectivos concluídos, os seus sonhos atingidos, a sua vida com um propósito?
Porque não merecem as más pessoas a eterna felicidade quando passaram por tantas línguas afiadas, tantas noites mal dormidas, rugas mal preenchidas, passados mal paridos, dias tão cinzentos?
Quando trabalharam arduamente para fazer feliz a única pessoa que realmente lhes interessa, mesmo descurando o facto de se amarem a si próprias ou não?
Porque não poderão estas más pessoas se juntar a todas as boas pessoas no paraíso vivenciando com essas outras pessoas a felicidade pré término de vida?
Não será já justamente um castigo a sua vida que foi tão vilmente vivida ter um término?
Não será já um castigo a entrada numa felicidade a que não estão habituados sem esforços?
Não será essa mudança e a reflexão eterna sobre os caminhos que palmilharam para atingir a felicidade uma penitência?
Será de todo possível as pessoas viverem felizes para sempre?
No final de contas o que interessa é esquecer a quantidade e a qualidade e deixar apenas os adjectivos.
No final de contas já todos fomos más pessoas, e ainda assim, todos merecemos viver felizes para sempre.
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