Saturday, January 10, 2015

Campos verdes de asfalto

Estou para aqui com uma guerra com as palavras e comigo própria.
Parece que as estendi ao vento num relvado qualquer e agora perdi o norte.
Como se estivesse estacionado o carro num parque de estacionamento com sete níveis e agora não o consigo encontrar.
Estava lá tudo o que eu queria dizer.
Está lá tudo o que eu estou a sentir.
Tenho algumas memórias do que estendi mas perco a concentração muito facilmente, e na altura devo ter prestado mais atenção às cores das molas do que propriamente aos tecidos em si.
Vim procurá-las no meio deste frio de Inverno dentro de um copo de vinho quente e de olhos inchados cobertos de tinta preta. Já ofereci um cigarro ao meu ambiente próprio e umas rodelas de chouriço ao estômago para alinhar os chacras necessários para o funcionamento da minha bússola interior, mas daqui ainda não consigo avistar esse relvado.
Talvez seja das luzes ofuscantes ainda de Natal ou dos Carlos todos que agora por aí apareceram.
Talvez seja do frio que gela partes do meu corpo que só passado três décadas descobri que tinha.
Talvez seja desta música que passa na rádio que é igual à de ontem é igual à que vai passar amanhã.
Talvez seja o meu músculo destreinado que já se tornou em gordura e agora não consegue voltar à sua forma inicial.
Talvez tenha sido este homem que me veio agora pedir indicações sobre o local onde parqueou o seu carro e com ele para além de trazer um pouco mais da ironia de eu não saber do meu, levou também mais uns metros de relva que eu já havia galgado.
Talvez elas não queiram sair.
Talvez eu tenha que ser assim.
Talvez eu seja assim.
Talvez para a próxima vez eu esqueça os campos verdes e estenda a roupa no asfalto.

Tuesday, August 26, 2014

A imagem das palavras

"Uma imagem vale mais do que mil palavras", dizem que disse Confúcio, um filósofo chinês.
Nas bocas do mundo andou esta frase, em troca de fluídos se propagou e começa hoje a ser o mote dos jovens portadores, descobridores e fãs das novas tecnologias.
Hoje muita gente fotografa e pouca gente sabe escrever.
Hoje muita gente se agarra ao provérbio numa mão e ao smartphone na outra, esquecendo o palavreado bonito que serviria para descrever um final de tarde passado entre amigos, um cão desconhecido que rouba as bolas todas da praia, a poesia de um copo de vinho entornado...
As letras são deixadas ao abandono em paredes, murais, pinturas quase rupestres que reciclam as mesmas palavras vezes sem conta, rodando entre elas algumas vezes para fazer frases ligeiramente diferentes umas das outras.
A palavra "coração", outrora de tamanha dimensão, é agora substituída por um símbolo de "maior que" seguido do número três formando assim o desenho de um coração deitado que pode facilmente ser confundido com um cone de duas bolas ou com um belo rabiosque suportado por umas finas pernas.
É também substituída por um gesto com ambas as mãos unidas em forma da letra "C", uma virada para dentro e outra virada para fora, formando assim um coração (como tem vindo a ser popularmente desenhado), que pode facilmente ser confundido com dois curtos pescoços de cisnes ou com o manifesto e/ou desejo de se agarrar em dois objectos fálicos em simultâneo.
E o tempo que gastei a escrever isto em vez de fotografar?
Pois é, arrumava-se o assunto logo num instante.
E nestas letras pouco ou nada de poesia se encontrou.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se não as repetirmos mil vezes.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se nos transmitir uma emoção incapaz de ser traduzida pelas mesmas.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se o conteúdo retratado tiver mais do que mil palavras.
Uma imagem valerá mais do que mil palavras se tivermos um quadro valioso na mão e o quisermos trocar por um pedaço de pão.
Uma imagem (quase) nunca valerá mais do que mil palavras.
A não ser que não consigamos comunicar (por que razão seja) sobre essa imagem, ou se a preguiça tomar conta da nossa vergonha, vontade e dicionário.

Tuesday, July 08, 2014

Entre aspas e desculpas

Hoje não é um bom dia para escrever porque estou menstruada.
Nunca é um bom dia para fazer qualquer coisa quando se está menstruada, sem ser ficar no sofá a beber chá, fumar cigarros, ver televisão sem importância, com gatos ao colo e casualmente uma barra ou duas de chocolate.
Vê-se um filme. Tem-se uma ideia arrebatadora e muito crítica em relação ao mesmo.
Vê-se em período normal. Fica-se com uma ideia completamente diferente.
Lê-se um livro. A mesma coisa.
Ouve-se uma música. A história repete-se.
Termos que nos vestir é um drama, porque tudo fica mal e a barriga está inchada.
O cabelo está uma miséria e a cara transfigurada.
As dores só são suportáveis depois de enchermos o corpo de drogas mas ainda assim há sempre uma moínha chata que só amaina quando voltamos ao sofá.
A apatia é incrível, a choradeira e a euforia também.
Não é um bom dia para escrever, porque vou escrever sobre coisas que só hoje vou dar importância, que só hoje sei que têm importância, que amanhã não terão importância nenhuma.

Hoje não é um bom dia para escrever porque estou com o tempo contado.
Nunca é um bom dia para fazer qualquer coisa quando temos o tempo contado sem ser quando temos o tempo contado para não fazer nenhum.
As pedras da calçada fazem tremer o autocarro, os carris o eléctrico, e a maresia o barco.
A caligrafia sai feia e as linhas deixam de ser direitas. Passado uns dias se vou a ler o que escrevi, custa-me o dobro a perceber o que lá está.
Se estás no café com o tempo contado, aparece sempre alguém.
Se estás a trabalhar, aparece sempre alguém.
Se vais à casa-de-banho, o teu organismo conta o tempo por ti.
Não é um bom dia para escrever, porque vou escrever sobre coisas rápidas, sobre ideias que voam soltas na minha cabeça, atirá-las para dentro de uma lata para mais tarde dar continuação. E aí já perdi o fio à meada.

Hoje não é um bom dia para escrever porque fiquei sem tabaco.
Hoje não é um bom dia para escrever porque morreu alguém que eu conhecia.
Hoje não é um bom dia para escrever porque o dia me correu muito bem.
Hoje não é um bom dia para escrever porque estou cansada.
Hoje não é um bom dia para escrever porque está sol e vou-me perder a beber refrescos na esplanada.
Hoje não é um bom dia para escrever porque está a chover e vou-me irritar a cada gota que cair perto da minha janela.
Hoje não é um bom dia para escrever porque acabou o meu incenso.
Hoje não é um bom dia para escrever porque não encontro o meu disco favorito.

Nunca é um bom dia para escrever ou fazer qualquer coisa que não seja do nosso desejo ou impulso directo com destino ao futuro.
A partir do momento em que predestinamos que temos que escrever ou fazer qualquer coisa, é impreterível a concentração, o juízo e a responsabilidade.
A partir do momento em que o começamos a fazer é impossível voltar atrás.
A partir do momento em que decidimos começar a escrever cria-se um vício no corpo.
Dá-se um mimo ao escape e à forma de expressão mais intíma e temos que continuar a tocar em todas as teclas do piano até a melodia estar completa.
Quando se deixa de escrever, a mente começa a acumular palavras, letras e ruídos que mais tarde ou mais cedo se desenvolvem numa avalanche de dores de cabeça e confusão mental.
Por isso escrevam, berrem, dancem, desenhem, ou não façam nada.
Um bom texto, um bom berro, uma boa dança, um bom desenho a partir do momento em que o corpo lhes sente o cheiro necessita de crescer e ser desenvolvido dia-a-dia.
Liberta a mente do stress rotineiro e desentope as artérias do pensamento.
É como um bom peido depois de uma série de cólicas acumuladas.
Deitem tudo cá p'ra fora.
Deixem fluir os vossos gases em prol do vosso bem.

Sunday, March 16, 2014

Sonhos biodegradáveis e a doçura do café

Deixei de pôr açúcar no café.
Descolei as solas dos pés do chão ardente do Inferno, larguei os sorrisos cozidos na face das noites passadas em branco, deixei de lado o copo meio vazio, deixei as preocupações e as indignações das últimas décadas em memórias que o tempo engoliu.
Deixei para trás os sonhos biodegradáveis e a doçura do café.
Caminhei de peito erguido com os braços atados à minha consciência que me elevava a cabeça para o céu e as pernas atadas ao meu ventre que me ligava à terra durante quilómetros até o meu corpo ganhar uma nova forma estática, firme e hirta de quem caminha com confiança.
Passei dias a olhá-lo ao espelho e a confiança começou a ser engolida do interior para o exterior.
Uma luta nunca é fácil, por menos luta que seja.
Uma escolha nunca é fácil, por menos escolha que seja.
Uma memória nunca é fácil de manter ou esquecer, por menos memória que seja.
Ao nosso redor celebram-se aniversários de nascimento, de morte, de relacionamentos amorosos, de viuvez, de mudanças de vida, de tudo um pouco.
Fazem-se tatuagens, piercings, cortam-se cabelos, muda-se de casa, muda-se de nome, muda-se de visual, muda-se de amigos, muda-se o tipo de letra, ouvem-se outras músicas, provam-se novos sabores.
“Este foi o dia em que tudo mudou.”
Acendem-se velas, deitam-se flores, oferecem-se umas, recordam-se outras tantas.
Tatuam-se datas, tatuam-se caras, tatuam-se flores.
Queremos marcar de alguma forma o que nos foi importante, o que nos é importante, e quando foi o dia em que decidimos que queríamos de alguma maneira marcar na nossa pele a importância que isso teve no nosso caminho enquanto pessoas.
E eu decidi deixar de pôr açúcar no café.
Decidi isso, após anos a vir a reduzi-lo.
Agora nem tão pouco lhe ponho açúcar, pois é a única amargura na vida que quero sentir.
A minha pele engole agora todo o açúcar que precisa por outros meios, e isso tatua-se na minha leveza de espírito todos os dias.

Tuesday, February 11, 2014

Gatos sem manchas nas unhas


Não tenho a certeza se é a memória ou se são as pessoas que são como as manchas que por vezes nos aparecem nas unhas.
Convivemos com elas até as unhas crescerem, sempre indagando como foram lá parar e quando desaparecerão, mas quando desaparecem esquecemos-nos delas tão depressa que é como se nunca tivessem existido. Até passado uns anos voltarem a aparecer.
Talvez seja a importância que têm na nossa vida que é passageira. Talvez seja a maneira como a sociedade nos ensina a dar-lhes importância. Talvez seja a importância que achamos que essas pessoas nos deram que nos manipula a pensar que é passageira mesmo podendo não ser.
A mim, algo me leva a crer que são quase todos passageiros, e que com uns e outros podemos aprender algumas coisas e não nos devemos deixar levar pelo ímpeto de querer fazer uma vida paralela com toda a gente com que nos cruzamos, em conversas de café e longas viagens de autocarro.
Às vezes gostava de ter a memória de uma criança, como uma vez descrevi sobre as suas aventuras na praia. Brincam com o seu novo melhor amigo, mas no dia seguinte há outro que cresce numa outra onda que se aproxima e que nos fará sorrir nessa nova tarde, e assim sucessivamente.
Se calhar a minha sede de conhecer e compreender os humanos será tão maior que a minha inocência que não consigo separar o real do surreal, sendo o surreal a minha noção do que as pessoas pretendem umas das outras e o real o que elas pretendem mesmo.
No fundo no fundo, o que eu acho mesmo é que a busca de um porquê que se inicia em muito novo, e que a busca de uma explicação que se inicia quando nos explicam o significado da palavra fé, é que são as causas deste nosso questionamento todo e a razão para se perder tanto tempo com pensamentos redundantes que nos ocupam o tempo quando poderíamos estar a usufruir do nosso bem estar de uma maneira muito mais simples.
Daí por vezes preferir ter nascido um gato.

Monday, December 02, 2013

Hélder, o rei das palavras

Hoje fui ao dentista de manhã.
A caminho do dentista, faltando ainda uns 5 minutos, resolvi sentar-me num banco no jardim do Príncipe Real e fumar um cigarro.
Sentei-me, enrolei-o, acendi-o e tirei o meu caderno e caneta da mala.
Comecei a escrever umas quantas parvoíces sobre o que via, o que não via, o que me lembrava, os cheiros e os sons.
Até que fui abordada por um homem, e parei de escrever.
Disse-me bom dia e perguntou se me podia declamar um poema que tinha escrito.
Chamava-se Hélder e tinha por volta de uns 50 anos.
Era um sem-abrigo e em vez de arrumar carros como os outros que rodeiam o jardim, vendia poemas. Explicou-me que pedia a amigos para os passar a computador e os imprimir numa casa de fotocópias ali no largo.
Pedia 2 euros por cada poema, e gostava de os declamar.
Declamou-me um primeiro, com muita emoção.
Explicou-o e declamou-me um segundo.
Comprei o primeiro, fui à consulta e prometi-lhe que a seguir ía ter com ele novamente.
Saí da consulta, procurei nos bancos do jardim e lá estava ele.
Quando me viu fez um sorriso inesperado.
"Voltaste!"
Sim, voltei, como tinha prometido.
Disse-me que era a primeira pessoa que lhe tinha comprado um poema fazia já algum tempo. As outras pessoas apenas passavam por ele e diziam que não estavam interessadas.
Já não conseguia declamar mais, estava frio e a voz dele já estava cansada.
Deu-me outro poema a ler, desta vez sobre um turista em Lisboa.
Mais uma vez me fascinou esta personagem com quem me havia cruzado numa Segunda-feira de manhã, perdida no meio do jardim do Príncipe Real entre a feira de antiguidades e o quiosque chique.
Uma antiguidade chique, o Hélder, um sem abrigo com um coração romântico.
Comprei-lhe mais um poema.
Este era sobre a Mona Lisa. Falámos imenso sobre ambos os poemas, ou melhor, falou ele. Eu estava com um sorriso parvo na cara a pensar na quantidade de pessoas bonitas e interessantes que há espalhadas pela cidade sem que nos consigamos aperceber disso.
Despedi-me dele e prometi-lhe que na minha próxima consulta o visitaria. Deixou o contacto no fim das folhas e disse-me que aceitava encomendas de poemas.
Este chama-se "Amoreiras", e segundo o Hélder, é um lembrete para todos os homens sobre a beleza das mulheres, a salvação do casamento e um mote para um crescimento na natalidade, pois já não se vêem grávidas e como chegámos à conclusão: "ou estão todas escondidas em casa durante a gestação, ou não as há".

Amoreiras

"Árvore frondosa
Teu nome evoca Amor
Frutos suculentos, boníssimos.
Das folhas, larvas produzem seda.
Fina, transparente.
Cobres escultural corpo
Contornos sinuosos, sugestivos, excitantes
Mamilos, salientes, intumescidos.
Dieta à base de Amora
Fizeram de ti, símbolo do Amor e Beleza.
Eva e a maçã, foi pecado
Tu mulher, da amora degustaste.
Saciaste desejo
Ignoravas poderoso efeito
Anatómico da Amora
Bela, sensual, sexy.
Homem algum se liberta, atracção exaurida
Força centrípeta, és a raínha.
Seda transparente, leve vaporosa, molda o corpo escultural
Activas testosterona, impossível resistir.
Depositas semente da vida
Ovário acolhedor
Nove meses de gestação
Depois
Dieta à base de Amora
De seda fina, transparente
Cobres teu níveo corpo escultural
Agora que és mãe
Estás na plenitude sexual
Amora põe-te mais quente
Emocional, sexualmente
És uma brasa
Poetas, escultores, pintores
Por ti foram inspirados
Enalteceram, enobreceram, dignificaram
Tua beleza
Comparada de Afrodite
Será que a dieta da Deusa do Amor
Era à base de Amoras?
Tu mulher
Réplica de Afrodite
Hoje estás boa, quente
Nos ovários incubarás
A semente do Homem."

Hélder Couto
Fevereiro 2013

Monday, November 25, 2013

Eu escrevo, se tu desenhares.

Tenho saudades de pequenos momentos da minha infância que não me lembro de ter vivido.
Tenho pena de não poder viver com esta memória de adulto, as experiências de criança.
Tocar em coisas pela primeira vez, ver sítios pela primeira vez, interagir com outro ser humano sem ser balbuciando pela primeira vez, do meu primeiro sonho, da minha primeira tristeza, do meu primeiro adeus.
Há muitas coisas preciosas que as crianças vivem e que nunca, mas nunca, se vão lembrar. Essas memórias ficarão apenas cravadas junto das rugas que irão nascer uns anos mais tarde perto dos lábios e das cavidades oculares.
A inocência, a curta memória e o desprendimento que lhes assiste em tão tenra idade, não lhes dá espaço para sonharem e viverem num “se” que poderia haver no dia, ou momento seguinte.
Fascinar-me-ia poder reviver um dia de praia, enquanto escoltada pelos meus pais. A alegria de correr na areia, de mergulhar nas ondas do mar como se fosse a melhor coisa do mundo (prazeres de que ainda desfruto com a mesma intensidade), e brincar com outras crianças como se nos conhecêssemos há muito tempo.
“O que estás a fazer?”
“Um castelo que tem uma piscina à frente.”
“Posso brincar contigo?”
E sem mais palavras, brincávamos a tarde inteira até que um dos nossos pais nos viria encher a cara de creme protector, pôr um panamá na moleirinha e comunicar-nos que não tarda nos íamos embora que já estava a ficar tarde. Naquele momento a única coisa em que pensávamos era em fazer uma birra daquelas pois não percebíamos o porquê de termos que ir embora, quando estávamos no melhor sítio do mundo, a brincar com a criança mais fixe do mundo, e o amanhã e o depois, eram conceitos que ainda não percebíamos. Daí até começarmos a choradeira era um instante. Depois vinha o outro pai que pegava na outra criança e nós só dizíamos um adeus despreocupado como se apenas nos tivéssemos cruzado na fila dos gelados ao contrário de termos partilhado uma tarde de intimidade infantil.
Depois crescemos.
Crescemos e a nossa inocência vai por água abaixo, os nossos conceitos ganham corpo, e as nossas decisões face às outras crianças têm obrigatoriamente que mudar.
Já quase ninguém se lembra dessas tardes na praia. Já ninguém quer brincar mais a isso. Agora queremos viver descansados e ter a nossa felicidade em ver as nossas crianças a brincar.
Custa-me desprender disto tudo.
Saio para a rua e observo os olhos das outras crianças agora adultas. Brinco com elas, e se alinharem na minha brincadeira, visto logo o meu fato-de-banho e corro com elas até à água.
Se não as encontrar no dia seguinte, agora sim, agarro-me aos “ses”.

Friday, November 08, 2013

Nalgas de gaivota

Estava na praia, deitada à espera do pôr-do-sol de papo para o ar, quando vejo um bando de gaivotas a voarem na minha direcção.
- Se alguma destas cagar em cima de mim, jogo no Euromilhões - disse eu em voz alta.
As pessoas riram-se entredentes.
Eram umas 18 gaivotas.
Sobrevoavam acerca de uns 20 metros de altura de nós.
Ninguém estava a prestar atenção a não ser eu. Estava tudo ocupado nos seus tempos livres, passatempos, hobbies, a jogar jogos no telefone, a ler livros, a ouvir música, a enviar mensagens.
A quinta gaivota abriu bem as nalgas e com um tiro certeiro sujou-me a coxa direita.
Num misto de nojo, espanto e alegria dei um berro que virou todas as cabeças p'ra mim.
Tal qual um bébé recém-nascido imita as expressões faciais dos pais, todos ao meu redor imitaram os meus sentimentos de nojo, espanto e alegria.
Corri para a água neste misto de emoções e mergulhei simultaneamente nas ondas e nos meus pensamentos.
Se ganhasse o primeiro prémio poderia finalmente comprar uma passagem e viajar até ao lago onde as medusas não me podem ferir e apenas ser admiradas, que é exactamente o que elas fazem com os humanos, pois temem-nos.
Saí da água tão depressa para apenas me aperceber que era Sexta-feira e que já passava das 20h00.
A minha última hipótese de jogar teria sido até às 19h00.
Escolhi os primeiros números que me vieram à cabeça e apontei-os num papel. Estrelas incluídas.
Mais tarde, já em casa, obriguei toda a gente a esperar que uma substituta da Marisa Cruz me viesse dizer se eventualmente poderia ter ganho algum prémio.
1, 2, 3 números certos e já toda a gente na sala começava a tremer.
5 números e 2 estrelas depois e o meu melhor enchorrilo de asneiras começava a ser debitado.
Quem não tinha percebido que eu não havia realmente jogado, abanava as cervejas, despejando espuma por cima uns dos outros, com se fosse o champanhe dos pobres.
Hoje em dia, os meus mergulhos já não são tão relaxados como eram.
Mergulhe eu numa ou noutra direcção e já não é só o mar que me banha.
São também as fezes luminosas de uma gaivota querendo viajar comigo.

Friday, October 25, 2013

Abraços líquidos

Podia não ter nada, mas se tivesse a ti, sentir-me-ia completa.
Quando os meus lábios tocam no teu corpo e envolves a minha boca com o teu toque quente, sinto a minha língua a ser amada como se de o órgão ou parte mais bonita do corpo, fosse a que ostento.
Agarras-me nas costas e apertas-me o coração com uma delicadeza suprema que quase me faz gemer em público.
E gemeria, não fossem estes olhos quadrados à minha volta à espera de encontrarem mais um louco neste mundo que lhes possa hipoteticamente justificar a sua existência insana que julgam (mas temem) ser única.
Por esta altura já o meu coração bate mais desordenadamente.
É altura de parar de falar de ti e de te abandonar, despido, junto a estes outros loucos.
É que todo o chá contém um pouco de cafeína e o meu fraco coração não me permite consumir tanta emoção assim.

Latas novas

Peguei nos papelinhos todos que andavam perdidos em bolsos de calças e casacos, arranjei uma lata de feijão vazia e guardei-os todos lá para um dia em que tivesse paciência de os rever e repensar nas palavras que p'ra lá tinha atirado.
Hoje, ao ler alguns, encontrei um que tinha algo escrito que achei por bem colocar neste blog, pois acho que é a sua cara.

"O amor é como o olho do cu. Cada um tem a sua opinião."

Friday, June 21, 2013

Há revolta no cais

Há revolta no meu cais.
Há revolta nas minhas hormonas, há revolta no meu ego.
Eu detesto o ego, e detesto que haja um "meu ego".
Mas o meu ego hoje revoltou-se, e eu sinto-me com hormonas masculinas, daquelas que precisam de se exibir em público.
Sinto-me com hormonas adolescentes, daquelas que precisam de berrar e chorar no pátio da escola.
O mais engraçado é o ego sentir-se ferido por existir, e a única maneira de se conseguir remediar de se sentir ferido e culpado por se sentir e por existir é tornar-se ainda mais evidente.
E aqui vos escrevi eu.
O ego desta miúda que está a beber um chá de camomila e a ver os dedos a soltarem-se por caminhos que não sabe bem tornear.
E curiosamente não é o chá de camomila que a vai deixar mais tranquila, mas sim o que o ego lhe se escreveu.
A mente mente e o ego é somente o que a mente lhe mente.

Thursday, May 30, 2013

As cores da revolta

Preto é a cor da revolta dos recém-nascidos, que são brutalmente arrancados das barrigas das mães para um ambiente frio e pouco prometedor, abrindo seus fortes pulmões e berrando tão alto, que se torna impossível deixar quem os trouxe, de olhos abertos por muito tempo, como um espirrar sem abrir os olhos.
Castanho é a cor da revolta para as crianças que pegam nas suas fezes e as espalham pelas paredes numa tentativa de chamar a atenção dos pais, por não saberem exactamente como se comportar num mundo maioritariamente habitado por adultos.
Vermelho é a cor da revolta para os corpos femininos que na puberdade se esvaem em sangue querendo-se tornar em corpos torneados, esbeltos, com ancas parideiras e curvas apetecíveis, fazendo as delícias do acasalamento.
É o sangue que se vai sucumbir em tentação, como a maçã que Eva deu a Adão.
Dourado é a cor da revolta para os pobres que se vêem ricos rapidamente ou que o querem parecer, como aqueles que vivem um Inverno infeliz e choroso trancados entre quatro paredes, e que quando o Sol começa a brilhar, se enfiam em solários procurando o tom de pele dourado de quem passou um Inverno sem preocupações monetárias.
Roxo é a cor da revolta para a população que alimenta pombos com milho da mesma cor para que caiam redondos no chão, projectando nestes pobres animais a revolta que sentem pelas verdadeiras ratazanas que governam o seu país.
Verde é a cor da revolta para as  máquinas conscientes, construídas pelo homem para que eles vivam num mundo cómodo e acomodado, e simplesmente deixam de funcionar, exibindo o resto de sua vida apenas a beleza exterior da sua carcaça.
Branco é a cor da revolta para o ensaio final de uma vida.
É a ausência de todas as cores. A ausência de todas as variações e junções de cores entre o preto; o castanho; o vermelho; o dourado; o roxo, o verde e todas as outras.
É a cor do feto que não entende, da criança que não percebe, da garota que não quer sofrer, da futilidade que começa a aparecer, da crucifixação do mais fraco, da máquina que não quer mais bater.
É a cor da revolta da luz que arde no fundo do túnel engolindo o humano e cuspindo-o novamente para o preto, até que aprenda a viver sem cores, flutuando apenas num mundo ideal.

Não sejas mau p'ra mim

Quem poderemos afinal denominar de más pessoas?
Serão aquelas que passaram uma vida inteira praticando o mal contra o mundo e contra todas as outras pessoas que o habitam, que as rodeiam?
Ou serão as pessoas que acham plausível que as más pessoas sejam condenadas por todo o mal que fizeram, praticando elas assim um outro tipo de maldade?
Devemos seguir o profeta e virar a outra face, ou devemos vestir a nossa melhor barba, calçar as nossas botas mais violentas e fazer jus ao provérbio "olho por olho, dente por dente"?
Acho que o que poderia acontecer às más pessoas seria viverem felizes para sempre.
Se isso seria mau ou bom para elas, é um assunto filosófico a ser discutido num dia em que tanto tu como eu tenhamos tempo, paciência, coragem e honestidade para o discutir.
As más pessoas hão de ter uma boa justificação para o serem.
Mas como há um rol gigante do que podemos considerar ser uma má pessoa, tendo em conta que pode ser uma pessoa que pratica o mal ou uma pessoa que não está bem construída para viver em sociedade e sem egoísmos, concentremo-nos nesta última.
Então e má pessoa porquê?
Porque não poderá o final dela ser viver feliz para sempre, quando passou a vida inteira passando por cima dos outros para ver os seus objectivos concluídos, os seus sonhos atingidos, a sua vida com um propósito?
Porque não merecem as más pessoas a eterna felicidade quando passaram por tantas línguas afiadas, tantas noites mal dormidas, rugas mal preenchidas, passados mal paridos, dias tão cinzentos?
Quando trabalharam arduamente para fazer feliz a única pessoa que realmente lhes interessa, mesmo descurando o facto de se amarem a si próprias ou não?
Porque não poderão estas más pessoas se juntar a todas as boas pessoas no paraíso vivenciando com essas outras pessoas a felicidade pré término de vida?
Não será já justamente um castigo a sua vida que foi tão vilmente vivida ter um término?
Não será já um castigo a entrada numa felicidade a que não estão habituados sem esforços?
Não será essa mudança e a reflexão eterna sobre os caminhos que palmilharam para atingir a felicidade uma penitência?
Será de todo possível as pessoas viverem felizes para sempre?
No final de contas o que interessa é esquecer a quantidade e a qualidade e deixar apenas os adjectivos.
No final de contas já todos fomos más pessoas, e ainda assim, todos merecemos viver felizes para sempre.

Duetos em vez de solos


Fui pedir uma nova identificação hoje de manhã.
O mesmo nome, um diferente estado.
Quando estudava, tive uma professora de Português que me fascinava imenso, apenas pelo facto de ser ambidextra.
Almejava também o ser um dia.
Não pondo o sonho de parte e deixando-o de molho para perceber se seria realmente uma ambição ou apenas um capricho, passado uns anos comprei um caderninho de linhas com um aspecto muito primário onde pudesse ensinar a minha mão esquerda a ter uma caligrafia tão bonita e legível como a direita.
Nos pequenos intervalos do trabalho, ou nos intervalos publicitários entre séries e filmes, treinava a letra “A” vezes sem conta até se tornar perfeita.
Foi quando os “A’s” começaram a tomar corpo e forma de gente e comecei a ter que treinar outra letra, que pus em causa o rumo do meu sonho.
Para que ser ambidextra? Para ter mais uma mão com que escrever? Para começar a escrever duetos em vez de solos? Para começar a conseguir estruturar dois textos em simultâneo completamente opostos um do outro? Ou seria apenas para me precaver de alguma desgraça que pudesse acontecer à minha querida mão direita que sempre me acompanhou; sofreu, e apoiou os meus mais íntimos segredos e desejos?
Foi aqui que decidi rever física e mentalmente tudo o que havia escrito até à data e tentar resumi-lo num bolo. Foi aqui que me apercebi que o que estava fora de mim tinha um impacto tão grande na minha vida que não me deixava ser nem respirar à vontade. De repente sentia que o meu nariz era comum a toda a gente, real e ficcional, e que todos respiravam ar por ele, enchendo os meus pulmões com ares que eu não queria. Esses ares eram depois escoados para o meu braço direito que por sua vez os empurrava para a minha mão, que não via outra alternativa senão purgá-los pelos seus poros, agarrando descontroladamente em canetas e papéis.
No mesmo dia em que desliguei a televisão e deixei de ler jornais, desabitei também cafés e bares e tomei a decisão de ir pedir uma nova identificação.
“O mesmo nome, um diferente estado”, pedi eu.
Fiz-me analfabeta e simplesmente acreditei que jamais poderia voltar a escrever.
Deixar de passar a dor pelas pontas do corpo como quem sofre de gota; deixar de me queixar dos mesmos pensamentos recorrentes como quem sofre de ciática.
Agora só penso, e mesmo isso é feito com ligeireza.
Sempre quis estar só, e só estar.

Wednesday, May 15, 2013

Too much

É esquisito pensar que o sítio onde há 10 anos celebrei o meu aniversário, é hoje o mesmo sítio onde vou buscar tomates.
E isto nem é uma metáfora nem uma maneira brejeira de dizer as coisas. Mas é o que parece que a minha vida quer fazer comigo: gozar-me.
"Se não tens tomates, vai buscá-los. Vai buscá-los ao sítio onde descuraste a tua juventude e decidiste deixar de viver para apenas existir."
Se não consegues vencê-los junta-te a eles, é o que dizem.
Peço mais um copo e rio-me com a/da vida.

Friday, April 26, 2013

A beleza chora até morrer

A beleza é muitas coisas.
A beleza é icónica, é utópica, é única, é rara, é inconstante.
A beleza é fútil, é mágica, é felicidade, é dor, é vida e morte.
A beleza é um ingrediente que alimenta muitas pessoas, muitas emoções, muitas ideias e sacrifícios.
A beleza é dissecada até ao mais pequeno detalhe da sua existência, é julgada pelo bem e pelo mal, pelo cego e pelo visionário.
A beleza vive num constante limbo que não a deixa somente ser ou algo positivo, ou algo negativo.
A beleza tem que se transformar tal qual um camaleão de forma a se adaptar a todas as situações.
A beleza vive constantemente no meio campo do que é o mau e o bom, o certo e o errado, o perfeito e o imperfeito.
A beleza é usada e abusada por quem menos gosta e mais abomina.
A beleza é um boneco que salta de mãos em mãos, de cabeça em cabeça, de papel em papel.
E o papel da beleza é trazer-nos um sorriso quando o peso da realidade apaga os nossos sonhos.
E é com este peso que ela tem que se apoiar numa balança e pular, pular, pular, até fazer com que o seu peso domine esta máquina imaginada pelo homem.
É este peso que lhe custa.
É este peso que a faz sofrer.
É este peso que faz com que as suas lágrimas caiam em vão, como chuva que cai no chão, sem nenhum propósito ou usufruto.
À beleza doem-lhe os ossos porque são magros e consistentes e têm um peso em cima deles muito difícil de suportar.
Dói-lhe a cabeça porque nunca sabe em que grupo se há de encaixar, a quem há de agradar ou fazer feliz.
A beleza está em todo o lado.
E quando consegue atingir a paz de haver um par de olhos que não a consegue ver, aparece outro que a tira lá do fundo e a ergue num pedestal.
A beleza não suporta a dimensão com que é venerada e esconde-se em todos os cantos, acabando inevitavelmente, contra o seu querer, por ser descoberta.
A beleza sonha em ser um objecto, um animal irracional, pois odeia ser uma palavra, um conceito, com um poder estonteante.
A beleza é como uma fénix que renasce das cinzas e se torna imortal mesmo quando o mundo acaba e explode em partículas estreladas que embelezam o céu.

Tuesday, April 09, 2013

A vida nunca tem um sentido singular, mas sim plural.

Há quem diga que a vida começa às segundas-feiras.
"Hoje é que é. Hoje vou começar tudo do princípio, organizar-me e fazer tudo o que quero."
Há quem diga que hoje é o primeiro dia do resto das suas vidas, mas isso para um ávido fã de Sérgio Godinho torna-se penoso, pois só passando noites em claro, é que o primeiro dia do resto das suas vidas se torna maior que as ditas vinte e quatro horas.
Há a vida socialmente aceitável em que amamos a nossa família e somos criados junto dela, tenha ela a forma que tiver, e a vida em que anseamos por ter uma nova família. Depois há uma nova vida junta dessa nova família que temos.
Há também quem comece uma nova vida a partir do momento em que vê nascer a sua primeira cria, ou vê morrer o seu primeiro progenitor, um grande amigo ou um grande amor.
Há ainda quem sofra uma grande mudança de visual ou de localização e diga que vai mudar de vida.
Há também doenças que nos mudam a vida, vivências, experiências, dissabores.
Há a vida dentro do trabalho perante o olhar curioso de quem só ali nos conhece e nos tenta julgar fora do mesmo, e há aqueles rasgos de vida que mostramos aos mesmos nas breves pausas que tomamos dentro do horário de trabalho, que lhes dá uma percepção sobre o que poderá ser a nossa vida embora seja uma achega muito pequena e provavelmente imparcial do que é na realidade a nossa vida.
Depois há a vida que se sonha em ter, há a vida que se vive nos sonhos e ainda a vida que se realmente tem. Esta última divide-se ainda em mais duas vidas: uma é a vida como a vemos, como a sentimos, como a percebemos, como a queremos; a outra é como mostramos como a vemos, como a sentimos, como a percebemos, como a queremos. E estas duas últimas são sempre muito difíceis de explicar e de viver, pois as nossas vozes interiores têm um dialecto que para todos os outros comuns mortais é considerado como extraterrestre e por vezes até por nós próprios.
Posto isto, torna-se difícil dentro de todas as vidas que temos, escolher uma para documentar.
Principalmente, quando se é "jovem" (insira aqui a designação para esta palavra que melhor lhe convir) e maior parte da nossa vida ter sido maioritariamente vivida em sonhos. Até porque tomar uma decisão é algo que pode demorar uma vida.

Sunday, January 06, 2013

CCLD

Está comprovado que o consumo excessivo de leite tem praticamente os mesmos efeitos que a morfina e que uma paixão arrebatadora tem praticamente os mesmos efeitos que a cocaína.
Posto isto, um grupo de dependentes de elementos supostamente não tóxicos mas que os viciam, juntaram-se e formaram o clube dos consumidores de leite derramado.
Há vários tipos de consumidores de leite derramado.
Existem os sôfregos, que o consomem com uma palhinha, tentando sorver todas as gotas possíveis, para poderem sentir a nata colada ao céu da boca, de onde querem que ela nunca mais saia.
Há os que preferem lambê-lo directamente do chão, dando assim liberdade a suas línguas de poderem sofrer cortes que serão eternos, fortes como cortes de folhas de papel.
Há os que o deixam secar, para que se transforme em placas de leite azedo, que mais tarde poderão lamber como chupa-chupas sem validade.
Neste grupo encontramos poetas, artistas, saudosistas, recalcados e traumatizados.

Depois existem os intolerantes à lactose.
Os intolerantes à lactose e descendentes de felinos não se incomodam com o leite derramado.
Os intolerantes porque o leite lhes cai mal, mesmo que apenas sorvam pequenas partes, e os descendentes de felinos porque mesmo que o leite esteja caído no chão, não os impossibilita de o consumir, pois a sua língua áspera que também os ajuda a sarar as feridas que o mesmo metaforicamente lhes possa causar, não tem barreira alguma em sorver líquidos que toquem o chão, a realidade.
Estes embora se tentem integrar no grupo com o intuito de conhecer os verdadeiros consumidores de leite derramado e de os tentar chamar à razão, são imediatamente banidos à entrada.
Estes olham o leite, cheiram o leite, molham o dedo e provam o leite.
Cai-lhes mal, pegam na esfregona, limpam o leite, lavam o balde e a esfregona.
Neste grupo encontramos poetas, artistas, saudosistas mas realistas.

O clube é exclusivo, encoraja-se a saída, mas não se encoraja a entrada.

Wednesday, November 07, 2012

Castelos de saliva

Olhei para o espelho e vi um panda.
Um panda esbranquiçado de olhos negros.
- Levei dois murros de tédio - disse-me ele, enquanto continuava a escurecer a boca desenhando um sorriso rasgado que pouco jus fazia ao seu estado de espírito.
Nunca tinha visto um panda como este. Aliás, sem ser no Jardim Zoológico, acho que nunca tinha estado tão perto de um panda.
Toquei-lhe nas costas, mas pouca carne havia. Na verdade, as minhas mãos apenas sentiram ossos, que mais me pareciam pedaços de bambu.
Apenas as bochechas eram salientes, pois o coitado era muito magro.
Dei-lhe couves de Bruxelas envolvidas em natas com pimenta preta para comer, mas em três tempos as vomitou.
- Talvez não tenha escolhido a melhor refeição para dar a um panda - pensei eu.
Mas ele não se mostrou muito incomodado. Ao que parece era um movimento natural do seu corpo a que já se tinha habituado.
Limpou a boca, deu um gole numa garrafa de água, e retocou os lábios.
Era um panda bonito, e embora tivesse os olhos visivelmente feridos pelo tédio, conseguia pegar nessas feridas e lambê-las com muita saliva para construir castelos que derrubassem o aborrecimento que emoldurava o espelho onde nos víamos.
Enquanto se pintava e fazia caretas, eu entretinha-me a conversar com ele. Quando dei pelas horas já estava na hora que tinha definido como hora de ir dormir.
Pousei o espelho, lavei-lhe a cara, e juntos sonhámos.

Permanente sobre papel

Estava a matar o tempo com papéis e bonecos quando te vi estendida no chão. Sozinha ali dormias, à espera que o teu amo te viesse buscar. Peguei em ti, descobri o teu manto cinzento e olhei perplexa o teu frágil bico.
Um bico fino, longo, e uma língua preta como a dos Shar-peis.
Exibi-te a todos e guardei-te junto ao meu peito.
Agora és minha.
Róis-me os nós dos dedos mas ainda assim, que prazer me dá ver-te a lamber os papéis com que costumava brincar para matar o tempo.
 
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