Dedos de criança que enrolam cigarros.
Lábios de menino, que sorvem o vinho.
Eles trazem seus sonhos, esperanças e fardos.
Eles deixam-me aqui, brincando sozinho.
Wednesday, November 16, 2011
Tuesday, November 08, 2011
Cristina & Sónia
Tina não atinava, e Sónia não sonhava.
Entre juras de amor, trocaram beijos e promessas.
Esta é a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Tina vivia de dia.
Levantava-se cedo, alimentava-se de vitaminas e namorava o sol com seu largo sorriso.
Era vivaça, queria sempre mais, porém temia sair de casa à noite, o que tornava os seus dias cada vez mais curtos.
Deixava-os afundarem-se em horas perdidas, minutos gastos, movimentos ténebres e assustadiços, sempre com receio que sua vida passasse e nada fizesse.
Enquanto ela se preocupava, o dia passava, e quando o dia passava, a noite surgia.
Sónia adorava a noite.
Sentia-se criativa, glorificava o dia passado - ainda que infortuno - e abraçava os lençóis com uma força enorme, para poder amar em descanso, o repousar de seu corpo.
Mas o corpo não queria descansar.
O corpo queria mais.
O corpo queria actas.
Actas diárias, as quais Sónia não sabia preencher.
Tal como Tina, Sónia vivia na esperança de que chegasse a noite, mas esta para que pudesse chegar outro dia, e tornasse a anoitecer.
O fardo para ambas era tal, que em horários inversos se passeavam pela cidade, em busca de sinais que pudessem acelerar ou estagnar o tempo.
Num dia em que o pôr-do-sol se atrasou, Tina e Sónia trocaram olhares.
Olhares pesados que eram iguais.
Olhares caídos que queriam conforto.
Olhares devastados, que queriam compreensão.
Foi neste horizonte que trocaram palavras, pensamentos e horas.
Entre cafés, chás e torradas, o tempo permitiu que se expusessem uma à outra.
Sónia sentia-se desgastada pelo peso de seus olhos, Tina desgastada por não os querer fechar.
Juntas caminharam dias adentro, galgando minutos que pareciam eternos, e vivendo sonos em nada efémeros.
Viviam na felicidade de terem encontrado uma alma oposta e ainda assim, gémea, que as completava.
Juntas destruiram relógios, partiram persianas, queimaram cortinados.
- Que o sol e a lua entrem em nossas casas, como a nossa luz perpetuou a noite e o dia!
Os dias corriam ferozes, as semanas comiam as tardes, e as noites sugavam os meses.
Anos passaram, e rumando à felicidade, Tina e Sónia resolvem adoptar uma criança para viver em seu mundo cromático.
Inês de seu nome, trazia com ela o aspecto frágil e cansado das mães.
Por mais sóis, luas, solstícios que se passassem, nenhum raio de luz conseguia abrir uma fresta que fosse nos lábios daquela criança.
Tina e Sónia perdiam a esperança. O que as tinha unido era agora o que as queria separar.
Inês não cria no amor entre estas duas mulheres, e comparava-as frequentemente a azeite e água. Não conseguia conceber o amor destas duas pessoas tão distintas, que separadas eram um soro auto-destruitivo tanto para uma como para outra.
Discordava de suas ideologias e criticava suas "desrotinas" diárias.
O crescimento de Inês veio desenterrar o passado de Tina e Sónia.
Os dias começavam a ser mais curtos e as noites mais compridas.
Sónia já não sonhava, e Tina desatinava.
A casa dividiu-se em duas, e Inês engravidou.
Tina deambulava pela casa de pijama o dia inteiro, raspando a caspa de seus ombros e trincando bolachas de água e sal, enquanto aquecia o seu corpo com café bem quente, esperando que o final de tarde a forçasse a deitar-se para a fazer sonhar com um dia diferente.
Sónia de pijama andava também, com luzes baixas e fones colados aos ouvidos. Uma caneca de chá numa mão, um cigarro na outra, enquanto o rímel lhe escorria olhos abaixo à espera de uma amostra de sol, para que se pudesse ir deitar, e sonhar com uma noite diferente.
Inês afastou-se de suas mães. Fez-se uma mulher saudável e trouxe ao mundo uma linda menina chamada Luz.
Viviam os dias como deviam ser vividos, e seus lábios nunca mais fecharam.
Suas mães porém, nunca mais abriram os olhos.
Esta foi a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Entre juras de amor, trocaram beijos e promessas.
Esta é a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Tina vivia de dia.
Levantava-se cedo, alimentava-se de vitaminas e namorava o sol com seu largo sorriso.
Era vivaça, queria sempre mais, porém temia sair de casa à noite, o que tornava os seus dias cada vez mais curtos.
Deixava-os afundarem-se em horas perdidas, minutos gastos, movimentos ténebres e assustadiços, sempre com receio que sua vida passasse e nada fizesse.
Enquanto ela se preocupava, o dia passava, e quando o dia passava, a noite surgia.
Sónia adorava a noite.
Sentia-se criativa, glorificava o dia passado - ainda que infortuno - e abraçava os lençóis com uma força enorme, para poder amar em descanso, o repousar de seu corpo.
Mas o corpo não queria descansar.
O corpo queria mais.
O corpo queria actas.
Actas diárias, as quais Sónia não sabia preencher.
Tal como Tina, Sónia vivia na esperança de que chegasse a noite, mas esta para que pudesse chegar outro dia, e tornasse a anoitecer.
O fardo para ambas era tal, que em horários inversos se passeavam pela cidade, em busca de sinais que pudessem acelerar ou estagnar o tempo.
Num dia em que o pôr-do-sol se atrasou, Tina e Sónia trocaram olhares.
Olhares pesados que eram iguais.
Olhares caídos que queriam conforto.
Olhares devastados, que queriam compreensão.
Foi neste horizonte que trocaram palavras, pensamentos e horas.
Entre cafés, chás e torradas, o tempo permitiu que se expusessem uma à outra.
Sónia sentia-se desgastada pelo peso de seus olhos, Tina desgastada por não os querer fechar.
Juntas caminharam dias adentro, galgando minutos que pareciam eternos, e vivendo sonos em nada efémeros.
Viviam na felicidade de terem encontrado uma alma oposta e ainda assim, gémea, que as completava.
Juntas destruiram relógios, partiram persianas, queimaram cortinados.
- Que o sol e a lua entrem em nossas casas, como a nossa luz perpetuou a noite e o dia!
Os dias corriam ferozes, as semanas comiam as tardes, e as noites sugavam os meses.
Anos passaram, e rumando à felicidade, Tina e Sónia resolvem adoptar uma criança para viver em seu mundo cromático.
Inês de seu nome, trazia com ela o aspecto frágil e cansado das mães.
Por mais sóis, luas, solstícios que se passassem, nenhum raio de luz conseguia abrir uma fresta que fosse nos lábios daquela criança.
Tina e Sónia perdiam a esperança. O que as tinha unido era agora o que as queria separar.
Inês não cria no amor entre estas duas mulheres, e comparava-as frequentemente a azeite e água. Não conseguia conceber o amor destas duas pessoas tão distintas, que separadas eram um soro auto-destruitivo tanto para uma como para outra.
Discordava de suas ideologias e criticava suas "desrotinas" diárias.
O crescimento de Inês veio desenterrar o passado de Tina e Sónia.
Os dias começavam a ser mais curtos e as noites mais compridas.
Sónia já não sonhava, e Tina desatinava.
A casa dividiu-se em duas, e Inês engravidou.
Tina deambulava pela casa de pijama o dia inteiro, raspando a caspa de seus ombros e trincando bolachas de água e sal, enquanto aquecia o seu corpo com café bem quente, esperando que o final de tarde a forçasse a deitar-se para a fazer sonhar com um dia diferente.
Sónia de pijama andava também, com luzes baixas e fones colados aos ouvidos. Uma caneca de chá numa mão, um cigarro na outra, enquanto o rímel lhe escorria olhos abaixo à espera de uma amostra de sol, para que se pudesse ir deitar, e sonhar com uma noite diferente.
Inês afastou-se de suas mães. Fez-se uma mulher saudável e trouxe ao mundo uma linda menina chamada Luz.
Viviam os dias como deviam ser vividos, e seus lábios nunca mais fecharam.
Suas mães porém, nunca mais abriram os olhos.
Esta foi a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Foste aos treinos? RM
Falar da boca p'ra fora,
assim espalho a minha dôr.
O que eu pensei outrora,
ouvidos de mercador.
Entra a cem sai a duzentos,
haja alguém que não se queixe.
Assim são meus pensamentos,
pela boca morre o peixe.
assim espalho a minha dôr.
O que eu pensei outrora,
ouvidos de mercador.
Entra a cem sai a duzentos,
haja alguém que não se queixe.
Assim são meus pensamentos,
pela boca morre o peixe.
Friday, October 14, 2011
O esquilo bochechudo
Sou um esquilo.
Sou um esquilo pequeno, de fraca figura.
Trepo às árvores e corro sem olhar para trás.
Corro irracionalmente e inconscientemente em busca de mais e mais comida.
Não sou um esquilo gordo, pois apesar de comer muito, tudo o que como é-me ameaçado como vómito, e expelido em fezes.
As minhas bochechas enormes armazenam toda a comida que não aprecio, mas que não consigo deixar de sorver.
O que mais gosto é aspirado instantaneamente para o meu estômago, e todo o restante - acre, amargo, podre, sem sabor - fica reservado durante muito tempo nas minhas bochechas.
Bem que tento mastigar com a pouca força que tenho, mas de pouco ou nada me vale.
Sou um esquilo que sabe escrever.
Sou um esquilo pequeno, de fraca figura.
Trepo às árvores e corro sem olhar para trás.
Corro irracionalmente e inconscientemente em busca de mais e mais comida.
Não sou um esquilo gordo, pois apesar de comer muito, tudo o que como é-me ameaçado como vómito, e expelido em fezes.
As minhas bochechas enormes armazenam toda a comida que não aprecio, mas que não consigo deixar de sorver.
O que mais gosto é aspirado instantaneamente para o meu estômago, e todo o restante - acre, amargo, podre, sem sabor - fica reservado durante muito tempo nas minhas bochechas.
Bem que tento mastigar com a pouca força que tenho, mas de pouco ou nada me vale.
Sou um esquilo que sabe escrever.
Tuesday, October 11, 2011
Casa de espelhos
Desculpa se a tua nuvem não é a que chove sempre em cima de mim.
Desculpa não seres inteiramente aquilo que te prometeram.
Desculpa este texto não ser para ti.
Desculpa não ser uma gruta que só ecoa a tua voz.
Pensamentos hexagonais são os que me instruí a não ter.
Vivo dentro de um cubo, que às vezes se transforma num hexágono, e ambos vivem dentro de um círculo.
Esse hexágono tem uma porta giratória, que tal como as convencionais só gira numa direcção.
O seu suporte, agreste e calcetado, segue somente o caminho do círculo, que se situa paralelo ao vasto universo da insensatez de um quadrado maior.
O quadrado pequeno é a minha casa, o meu espaço.
Lá guardo a minha memória, os meus princípios, os meus objectivos, a minha sensatez.
Quando as portas giratórias se abrem para o hexágono, assumo o papel de capitão, mas trago sempre cascos do meu quadrado comigo.
Peço desculpa se o meu cubo não tem seis lados, como o hexágono quer impôr.
Viver nesse círculo, é algo que não me atinge, nem sei se me atingirá alguma vez.
O quadrado gigante, paralelo ao círculo, vejo-o de vez em quando - quando salto do meu quadrado directamente para o maior, e abro apenas uma fresta para entrar ar fresco.
Mas nem sempre o ar fresco é bom para a saúde.
Às vezes em demasia causa-me náuseas e comichões na garganta.
Pego então no meu saco-cama e arrasto-me para onde a minha disposição me levar.
Monday, October 03, 2011
A velhice é um estado de espírito
Velhos prematuros, são aqueles que não conseguem compreender o ambiente ao seu redor ou conceber a verdade em que acreditam, independentemente da idade que têm.
Creio que haja casos em que estes velhos prematuros depressa se tornam em loucos.
Pecados mortais habitam e desabitam em seus corpos, como as marés. Maioritariamente imprevisíveis (ou irregulares).
Os ossos de seus corpos são de açúcar, e facilmente bamboleam e desfalecem. Quando de velhos passam a loucos, os mesmos ossos tornam-se em caramelo duro e inquebrável, nada fácil de roer e que só tendem a partir os dentes de quem os ataca, negando-lhes a verdade ou compreensão, pelas quais durante anos penaram e lutaram.
E não há velhos loucos.
Só loucos ou velhos.
Creio que haja casos em que estes velhos prematuros depressa se tornam em loucos.
Pecados mortais habitam e desabitam em seus corpos, como as marés. Maioritariamente imprevisíveis (ou irregulares).
Os ossos de seus corpos são de açúcar, e facilmente bamboleam e desfalecem. Quando de velhos passam a loucos, os mesmos ossos tornam-se em caramelo duro e inquebrável, nada fácil de roer e que só tendem a partir os dentes de quem os ataca, negando-lhes a verdade ou compreensão, pelas quais durante anos penaram e lutaram.
E não há velhos loucos.
Só loucos ou velhos.
Não é isso
Doem-me os pés, mas não é isso que atrasa o meu passo.
A camisa sobe-me, mas não é isso que faz com que a ajuste.
O cigarro sabe-me bem, mas não é isso que faz com que o devore.
O sistema de rega assalta o ruído em redor, mas não é isso que embeleza o silêncio.
A mão é ligeiramente jovem, mas não é isso que faz a caneta deixar de tombar.
A cortina está desfiada, mas não é isso que faz com que se feche.
O cansaço senta-se na sala de estar, mas não é isso que me faz querer dormir.
As pedras da calçada alimentam-me a imaginação, mas não é isso que me faz sorrir.
A minha espinha dorme o dia inteiro, mas não é isso que me mói.
É que.. eu odeio esperar.
A camisa sobe-me, mas não é isso que faz com que a ajuste.
O cigarro sabe-me bem, mas não é isso que faz com que o devore.
O sistema de rega assalta o ruído em redor, mas não é isso que embeleza o silêncio.
A mão é ligeiramente jovem, mas não é isso que faz a caneta deixar de tombar.
A cortina está desfiada, mas não é isso que faz com que se feche.
O cansaço senta-se na sala de estar, mas não é isso que me faz querer dormir.
As pedras da calçada alimentam-me a imaginação, mas não é isso que me faz sorrir.
A minha espinha dorme o dia inteiro, mas não é isso que me mói.
É que.. eu odeio esperar.
Thursday, September 29, 2011
Enquanto a vida não arrebenta
Arrancada da placenta
Pela mão que a amamenta
Nasce uma míuda sardenta
No início dos anos oitenta.
Deveras rabugenta
É banhada em água benta
Naquela Páscoa barulhenta
Feito que p'ra sempre lamenta.
Com o seu metro e cinquenta
Come pastilhas de menta
D'aventuras sedenta
O sol cumprimenta.
Quando a febre fermenta
E quando já não aguenta
Olha o corpo que a atormenta
E demolha-a na sebenta.
Pela mão que a amamenta
Nasce uma míuda sardenta
No início dos anos oitenta.
Deveras rabugenta
É banhada em água benta
Naquela Páscoa barulhenta
Feito que p'ra sempre lamenta.
Com o seu metro e cinquenta
Come pastilhas de menta
D'aventuras sedenta
O sol cumprimenta.
Quando a febre fermenta
E quando já não aguenta
Olha o corpo que a atormenta
E demolha-a na sebenta.
Wednesday, September 21, 2011
VAI A ABRIR!
Sunday, August 28, 2011
Como ninguém
Ninguém me dá o descanso e a paz, como o conforto material construído pelo homem.
Em cubículos dispendiosos, que só interessam a ociosos, olho em redor e deparo-me com ninguém.
Corpos inválidos, sem donos de si próprios, em sítios duvidosos, abanando-se como ninguém.
Mentes suportadas, por marionetistas, em corpos descrentes, pensam e agem como ninguém.
Tremo entre paragens, anseio por outras paisagens, ao longo das duas margens, enquanto flutuo como ninguém.
"O egoísmo reina!", grita-me a voz, mas eu não quero acreditar. Amo-te como ninguém.
Wednesday, August 24, 2011
Acorda-me quando deixares de falar.
Esta vista entorpecida deixa-me mal disposta, a recordar e a aperceber-me do que não quero.
Mas há dias em que se não tivesse esta vista, o dia iria ter uma performance mais confusa e entediante.
E assim são dois, contando com o factor surpresa.
Dois dias de tédio.
E dois é positivo!?
Mas há dias em que se não tivesse esta vista, o dia iria ter uma performance mais confusa e entediante.
E assim são dois, contando com o factor surpresa.
Dois dias de tédio.
E dois é positivo!?
Monday, August 08, 2011
este mundo dá-me náuseas
"Minhas entranhas são como animais de estimação mal-educados. Elas podem-se revoltar a qualquer momento sem motivo aparente, mas no final eu quase sempre consigo domá-las. Basta dar mais atenção a leitura ou cantar uma boa música."
por Mariane Montedori (ler texto integral aqui)
por Mariane Montedori (ler texto integral aqui)
Monday, August 01, 2011
Aninhava-me num monte de merda. Na boa.
(E aqui, o ponto final é o que faz mais sentido, é o que tem mais poder, é o que decide tudo. É o que dá a sentença aos braços cansados, pior que os braços cruzados. Braços moles e dormentes à espera de gangrenarem. É o que define o cansaço, é o que atropela as vírgulas, essas que se agregam nesta, naquela, e na outra, oportunidades de caminharem para a frente, como numa frase. Ele às vezes gostava de ser bem mais pesado, mais rígido, mais respeitado. Mas ele tem o mesmo peso que as suas sentenças. E acaba por se ver resumido, a um mero ponto final.)
Friday, July 22, 2011
Dores de cabeça infernais
Ele não chorava. Não sabia ou não queria, nem ele percebia.
As gerações de lágrimas que na sua cabeça habitavam, formavam uma família de gotas cada vez maior que se tornava num mar.
Um mar revoltado por se ver mudo.
Um mar frustrado por não se poder expandir.
Um mar sufocado por se ver preso.
Povoavam deprimidas entre as órbitas e o cucuruto deste ser, multiplicando-se cada vez em mais, inúmeras, lágrimas salgadas.
Os seus gritos eram ensurdecedores.
Roíam o seu caminho até à órbita, na tentativa de fazer ruir a fachada da mesma.
O canal nasal ou a traqueia, ficariam a um nível muito acima ou muito abaixo.
Comunicar de outra maneira não sabiam, por isso ferir o coração estava fora de questão.
Portanto já que dali não conseguiam sair, a única forma que tinham de se manifestar era através de ruídos ensurdecedores, causados pela fúria da movimentação dos seus ventos, e pelo embate forte na fachada da órbita.
O que causava fortes enxaquecas a este ser, que não queria chorar.
As gerações de lágrimas que na sua cabeça habitavam, formavam uma família de gotas cada vez maior que se tornava num mar.
Um mar revoltado por se ver mudo.
Um mar frustrado por não se poder expandir.
Um mar sufocado por se ver preso.
Povoavam deprimidas entre as órbitas e o cucuruto deste ser, multiplicando-se cada vez em mais, inúmeras, lágrimas salgadas.
Os seus gritos eram ensurdecedores.
Roíam o seu caminho até à órbita, na tentativa de fazer ruir a fachada da mesma.
O canal nasal ou a traqueia, ficariam a um nível muito acima ou muito abaixo.
Comunicar de outra maneira não sabiam, por isso ferir o coração estava fora de questão.
Portanto já que dali não conseguiam sair, a única forma que tinham de se manifestar era através de ruídos ensurdecedores, causados pela fúria da movimentação dos seus ventos, e pelo embate forte na fachada da órbita.
O que causava fortes enxaquecas a este ser, que não queria chorar.
Thursday, July 07, 2011
"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena."
Hmm.. não creio, meu caro!
Isto é tudo muito bonito de se dizer, mas sejamos prácticos.. não é bem assim.
A minha alma é grande, e não vale a pena pisar um cagalhão p'ra voltar a saber que cheira mal e vai custar a sair.
Se não do sapato, pelo menos da memória.
Isto é tudo muito bonito de se dizer, mas sejamos prácticos.. não é bem assim.
A minha alma é grande, e não vale a pena pisar um cagalhão p'ra voltar a saber que cheira mal e vai custar a sair.
Se não do sapato, pelo menos da memória.
Sunday, June 19, 2011
O pão que o dia(bo) amassou
Era de pão, a cama onde o diabo se deitou.
Pão que fez, e amassou.
O pão que o diabo amassou, pû-lo na sopa.
E foi o melhor momento do meu dia inteiro.
Sentir o quente na boca de quem não queria comer.
Sentir o pão duro com dias, quase meses, a definhar dentro da sopa, como um corpo dormente a ser absorvido pelo universo.
Curioso serem hábitos de anos, que facilmente se tornam comparáveis a acções duvidosas de razão e certezas.
Comi o pão que o diabo amassou.
O diabo ignorante, que nem sequer era padeiro.
Quase se queimava seriamente a pôr a fornada ao lume.
Mas não se queimou, só ficou com uma ferida enorme que ardeu para sempre.
O pão estava mal cozido.
Se calhar por isso é que a sopa não me caíu bem.
Pão que fez, e amassou.
O pão que o diabo amassou, pû-lo na sopa.
E foi o melhor momento do meu dia inteiro.
Sentir o quente na boca de quem não queria comer.
Sentir o pão duro com dias, quase meses, a definhar dentro da sopa, como um corpo dormente a ser absorvido pelo universo.
Curioso serem hábitos de anos, que facilmente se tornam comparáveis a acções duvidosas de razão e certezas.
Comi o pão que o diabo amassou.
O diabo ignorante, que nem sequer era padeiro.
Quase se queimava seriamente a pôr a fornada ao lume.
Mas não se queimou, só ficou com uma ferida enorme que ardeu para sempre.
O pão estava mal cozido.
Se calhar por isso é que a sopa não me caíu bem.
Friday, June 17, 2011
O grande poder do olho de vidro e do cubo de gelo.
As pestanas.
São longas pestanas, em olhos de vidro.
Pestanas que correm o dia inteiro com a pressa que chegue a noite para que possam descansar.
Passam dias inteiros sem ver os seus próprios pés, pois a gravidade não lhes permite fazê-lo antes do corpo portador se decidir a descansar.
As lágrimas.
São lágrimas em vão.
É chuva que cai no chão.
Não se aproveitam, não se reciclam.
Abraçam-se ao globo ocular, escorregando de seguida.
Repetem o procedimento vezes sem conta.
Talvez por esquecimento, talvez por teimosia.
Talvez por quererem acreditar que é possível agarrá-lo e não voltar a cair.
O olho de vidro co-habita com o corpo humano.
Apesar de se tornar parte dele, marca sempre a sua posição, tal qual um cubo de gelo.
Frio, imóvel, intacto, alheio a movimentos à sua volta.
Indiferente aos restantes habitantes do mesmo, de modo a que a sua não manifestação de sentimentos ou opiniões, não se possam virar contra ele como uma faca de dois gumes, e que isto faça com que o corpo o cuspa para fora.
Limita-se a estar, e a viver no seu egoísmo.
Faz-me crer que tudo o que é irracional e inanimado é facilmente comparável à suposta identidade, individualidade, independência e racionalidade do ser humano.
São longas pestanas, em olhos de vidro.
Pestanas que correm o dia inteiro com a pressa que chegue a noite para que possam descansar.
Passam dias inteiros sem ver os seus próprios pés, pois a gravidade não lhes permite fazê-lo antes do corpo portador se decidir a descansar.
As lágrimas.
São lágrimas em vão.
É chuva que cai no chão.
Não se aproveitam, não se reciclam.
Abraçam-se ao globo ocular, escorregando de seguida.
Repetem o procedimento vezes sem conta.
Talvez por esquecimento, talvez por teimosia.
Talvez por quererem acreditar que é possível agarrá-lo e não voltar a cair.
O olho de vidro co-habita com o corpo humano.
Apesar de se tornar parte dele, marca sempre a sua posição, tal qual um cubo de gelo.
Frio, imóvel, intacto, alheio a movimentos à sua volta.
Indiferente aos restantes habitantes do mesmo, de modo a que a sua não manifestação de sentimentos ou opiniões, não se possam virar contra ele como uma faca de dois gumes, e que isto faça com que o corpo o cuspa para fora.
Limita-se a estar, e a viver no seu egoísmo.
Faz-me crer que tudo o que é irracional e inanimado é facilmente comparável à suposta identidade, individualidade, independência e racionalidade do ser humano.
Thursday, May 19, 2011
a ferida de Sara

Sara era saudosista.
Sara andava sempre nua, e por isso apanhava maleitas. Mal se curava de uma, adoecia logo de outra.
Acontecia muitas vezes ter o bom de uma doença (a febre quente, e os mimos que recebia), e o mau de estar de boa saúde (não se poder queixar, sentindo-se insatisfeita com isso).
Sara não parou de crescer. Crescia e mingava conforme o tempo; conforme os apeteceres do seu corpo; conforme as suas crenças, conforme as palpitações do seu corpo.
Sara amou muito. Também odiou, também ressentiu. Mas como tudo na vida dela, o ódio, os ressentimentos, o rancor, todos eles eram também visitantes passageiros.
Sara tinha sonhos perpétuos. Muitos reais, muitos ficcionais.
Sara era um livro aberto, que só se fechava quando um capítulo era aborrecido, ou o pó não a deixava ler-se.
Sara respirava como um peixe fora de água. Sofregamente mas a um ritmo tremendamente lento. Abria a boca muito devagar e passavam-se meses, e quando a fechava, já cansada, outros tantos haviam passado.
Sara tinha goelas rugosas, lascadas, moldadas pelo tempo, que embora a preservasse de muitas maneiras, não deixava de passar por ela, castigando-a, como o resto dos mortais.
Mas Sara nunca definhava.
Sara era como um vírus.
Sara era o momento em que a língua do felino toca na sua própria pele vezes e vezes sem conta.
Sara estava enferma de tanto beber o suco da vida.
Sara desfazia-se como um copo de açúcar. Quando lhe tocavam desfazia-se em ardor.
Sara pecava e traía.
Sara era hiperactiva.
Sara tinha um coração que batia tão depressa como um pequeno mamífero em apuros, mas que era tão grande como o de um animal de grande porte.
Sara era um animal, racional e irracional. Sentia dor prazer, e um misto de culpa com ignorância.
Sara nunca estava bem, a sua ferida era enorme.
Sara tinha um tique nervoso. Abria e fechava o porta-moedas incessantemente.
Sara comia as suas próprias crostas, na esperança de ficar melhor, de esquecer o propósito das mesmas. Do porquê de ali se terem instalado.
Sara não era conformista, mas gostava de ser. Ela acreditava que talvez assim, a sua ferida sarasse.
Monday, May 16, 2011
Eu, breu.

"Tantos carros e nenhum me passa por cima."
Estava tão aborrecido que voltou para casa.
Por lá, o tédio continuava a dominar o ar, embora tivesse deixado as janelas todas abertas de forma a arejar a casa.
Esticou-se no sofá.
De barriga para cima, fixava o tecto, na esperança de ser embalado pelo cansaço de tentar manter os olhos abertos o máximo tempo possível sem os piscar.
Há muito tempo que não estava assim tão aborrecido.
Nada o animava, nada fazia o tempo passar mais depressa.
Na verdade, o dia ao invés de avançar, parecia ficar cada vez mais claro.
"Que tédio." - pensou.
Já havia tomado banho duas vezes, assaltado a sua despensa outras tantas.
A rua não o aliciava, as pessoas não o seduziam.
A televisão e o computador só mostravam o sinal de estática, diziam-lhe os olhos dele.
Enfadonhado começou a observar o seu corpo.
Cada cicatriz, cada sinal, cada veia, cada pêlo, cada desnível de carne, tudo era novo para ele.
Nunca antes havia tomado tanto tempo a olhar para o seu simples corpo.
As peles soltas, os pêlos encravados, os pontos negros, as marcas do sol e da velhice, a marca do relógio, a profundidade do seu umbigo..
Aí começou a indagar sobre o seu interior.
Se conseguisse ver o seu interior, talvez viesse a descobrir um novo mundo e por certo que este monstruoso aborrecimento iria acabar, e a noite iria chegar mais depressa.
Mas tal feito não se cria concebível.
Fechava os olhos mas só via um fundo preto. Às vezes umas listas brancas, mas maioritariamente, tudo preto.
Fechar os olhos obviamente que não iria ajudar. Mas talvez com eles abertos..
Tentou espremer a face o mais perto que conseguia para perto da nuca, mas a única coisa que acontecia, era os seus olhos focarem o nariz, e por vezes conseguir ver um pouco a saliência das suas maçãs do rosto.
"Isto assim não está a resultar. E se abrir a boca?"
Não sendo belfo, seria complicado, mas tentou fazê-lo.
Pegando no lábio inferior, começou a puxá-lo para longe da sua cara, mais longe, mais longe, mais longe, até o fazer tão grande que cobriu a cara!
Olhando para baixo viu tudo escuro, tudo preto. Nem listas brancas havia.
"Deve ser isto a que chamam breu".
Monday, May 09, 2011
um dia pego fogo a esta merda toda
Acendi um fósforo, e peguei fogo a tudo.
Começou tudo a arder.
A casa, as folhas, os meus pés, as minhas unhas, o meu cabelo, a minha cama.
A minha cama parecia um poço de sangue gaseificado.
Longas chamas atingiam o tecto e fugiam para consumir o resto do quarto.
E um silêncio brutal.
Um silêncio tão brutal e um ar tão apático de todos os "objectos" animados e inanimados que o mundo inteiro ao saber desta história, passou a colorir em sua mente, a palavra silêncio de côr preta.
Deixou de haver ar, mas também não sufoquei.
Lentamente observei a tridimensionalidade a desfazer-se em cinzas.
Inspirei tão fundo que senti os pulmões a estalarem e o meu corpo a ficar "desorganizado", tornando-se numa carcaça oca, em que só circulava a aragem fresca de tal cenário.
Tremendo alívio!
Foi tão bom.
Começou tudo a arder.
A casa, as folhas, os meus pés, as minhas unhas, o meu cabelo, a minha cama.
A minha cama parecia um poço de sangue gaseificado.
Longas chamas atingiam o tecto e fugiam para consumir o resto do quarto.
E um silêncio brutal.
Um silêncio tão brutal e um ar tão apático de todos os "objectos" animados e inanimados que o mundo inteiro ao saber desta história, passou a colorir em sua mente, a palavra silêncio de côr preta.
Deixou de haver ar, mas também não sufoquei.
Lentamente observei a tridimensionalidade a desfazer-se em cinzas.
Inspirei tão fundo que senti os pulmões a estalarem e o meu corpo a ficar "desorganizado", tornando-se numa carcaça oca, em que só circulava a aragem fresca de tal cenário.
Tremendo alívio!
Foi tão bom.
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