Thursday, May 30, 2013

Duetos em vez de solos


Fui pedir uma nova identificação hoje de manhã.
O mesmo nome, um diferente estado.
Quando estudava, tive uma professora de Português que me fascinava imenso, apenas pelo facto de ser ambidextra.
Almejava também o ser um dia.
Não pondo o sonho de parte e deixando-o de molho para perceber se seria realmente uma ambição ou apenas um capricho, passado uns anos comprei um caderninho de linhas com um aspecto muito primário onde pudesse ensinar a minha mão esquerda a ter uma caligrafia tão bonita e legível como a direita.
Nos pequenos intervalos do trabalho, ou nos intervalos publicitários entre séries e filmes, treinava a letra “A” vezes sem conta até se tornar perfeita.
Foi quando os “A’s” começaram a tomar corpo e forma de gente e comecei a ter que treinar outra letra, que pus em causa o rumo do meu sonho.
Para que ser ambidextra? Para ter mais uma mão com que escrever? Para começar a escrever duetos em vez de solos? Para começar a conseguir estruturar dois textos em simultâneo completamente opostos um do outro? Ou seria apenas para me precaver de alguma desgraça que pudesse acontecer à minha querida mão direita que sempre me acompanhou; sofreu, e apoiou os meus mais íntimos segredos e desejos?
Foi aqui que decidi rever física e mentalmente tudo o que havia escrito até à data e tentar resumi-lo num bolo. Foi aqui que me apercebi que o que estava fora de mim tinha um impacto tão grande na minha vida que não me deixava ser nem respirar à vontade. De repente sentia que o meu nariz era comum a toda a gente, real e ficcional, e que todos respiravam ar por ele, enchendo os meus pulmões com ares que eu não queria. Esses ares eram depois escoados para o meu braço direito que por sua vez os empurrava para a minha mão, que não via outra alternativa senão purgá-los pelos seus poros, agarrando descontroladamente em canetas e papéis.
No mesmo dia em que desliguei a televisão e deixei de ler jornais, desabitei também cafés e bares e tomei a decisão de ir pedir uma nova identificação.
“O mesmo nome, um diferente estado”, pedi eu.
Fiz-me analfabeta e simplesmente acreditei que jamais poderia voltar a escrever.
Deixar de passar a dor pelas pontas do corpo como quem sofre de gota; deixar de me queixar dos mesmos pensamentos recorrentes como quem sofre de ciática.
Agora só penso, e mesmo isso é feito com ligeireza.
Sempre quis estar só, e só estar.

Wednesday, May 15, 2013

Too much

É esquisito pensar que o sítio onde há 10 anos celebrei o meu aniversário, é hoje o mesmo sítio onde vou buscar tomates.
E isto nem é uma metáfora nem uma maneira brejeira de dizer as coisas. Mas é o que parece que a minha vida quer fazer comigo: gozar-me.
"Se não tens tomates, vai buscá-los. Vai buscá-los ao sítio onde descuraste a tua juventude e decidiste deixar de viver para apenas existir."
Se não consegues vencê-los junta-te a eles, é o que dizem.
Peço mais um copo e rio-me com a/da vida.

Friday, April 26, 2013

A beleza chora até morrer

A beleza é muitas coisas.
A beleza é icónica, é utópica, é única, é rara, é inconstante.
A beleza é fútil, é mágica, é felicidade, é dor, é vida e morte.
A beleza é um ingrediente que alimenta muitas pessoas, muitas emoções, muitas ideias e sacrifícios.
A beleza é dissecada até ao mais pequeno detalhe da sua existência, é julgada pelo bem e pelo mal, pelo cego e pelo visionário.
A beleza vive num constante limbo que não a deixa somente ser ou algo positivo, ou algo negativo.
A beleza tem que se transformar tal qual um camaleão de forma a se adaptar a todas as situações.
A beleza vive constantemente no meio campo do que é o mau e o bom, o certo e o errado, o perfeito e o imperfeito.
A beleza é usada e abusada por quem menos gosta e mais abomina.
A beleza é um boneco que salta de mãos em mãos, de cabeça em cabeça, de papel em papel.
E o papel da beleza é trazer-nos um sorriso quando o peso da realidade apaga os nossos sonhos.
E é com este peso que ela tem que se apoiar numa balança e pular, pular, pular, até fazer com que o seu peso domine esta máquina imaginada pelo homem.
É este peso que lhe custa.
É este peso que a faz sofrer.
É este peso que faz com que as suas lágrimas caiam em vão, como chuva que cai no chão, sem nenhum propósito ou usufruto.
À beleza doem-lhe os ossos porque são magros e consistentes e têm um peso em cima deles muito difícil de suportar.
Dói-lhe a cabeça porque nunca sabe em que grupo se há de encaixar, a quem há de agradar ou fazer feliz.
A beleza está em todo o lado.
E quando consegue atingir a paz de haver um par de olhos que não a consegue ver, aparece outro que a tira lá do fundo e a ergue num pedestal.
A beleza não suporta a dimensão com que é venerada e esconde-se em todos os cantos, acabando inevitavelmente, contra o seu querer, por ser descoberta.
A beleza sonha em ser um objecto, um animal irracional, pois odeia ser uma palavra, um conceito, com um poder estonteante.
A beleza é como uma fénix que renasce das cinzas e se torna imortal mesmo quando o mundo acaba e explode em partículas estreladas que embelezam o céu.

Tuesday, April 09, 2013

A vida nunca tem um sentido singular, mas sim plural.

Há quem diga que a vida começa às segundas-feiras.
"Hoje é que é. Hoje vou começar tudo do princípio, organizar-me e fazer tudo o que quero."
Há quem diga que hoje é o primeiro dia do resto das suas vidas, mas isso para um ávido fã de Sérgio Godinho torna-se penoso, pois só passando noites em claro, é que o primeiro dia do resto das suas vidas se torna maior que as ditas vinte e quatro horas.
Há a vida socialmente aceitável em que amamos a nossa família e somos criados junto dela, tenha ela a forma que tiver, e a vida em que anseamos por ter uma nova família. Depois há uma nova vida junta dessa nova família que temos.
Há também quem comece uma nova vida a partir do momento em que vê nascer a sua primeira cria, ou vê morrer o seu primeiro progenitor, um grande amigo ou um grande amor.
Há ainda quem sofra uma grande mudança de visual ou de localização e diga que vai mudar de vida.
Há também doenças que nos mudam a vida, vivências, experiências, dissabores.
Há a vida dentro do trabalho perante o olhar curioso de quem só ali nos conhece e nos tenta julgar fora do mesmo, e há aqueles rasgos de vida que mostramos aos mesmos nas breves pausas que tomamos dentro do horário de trabalho, que lhes dá uma percepção sobre o que poderá ser a nossa vida embora seja uma achega muito pequena e provavelmente imparcial do que é na realidade a nossa vida.
Depois há a vida que se sonha em ter, há a vida que se vive nos sonhos e ainda a vida que se realmente tem. Esta última divide-se ainda em mais duas vidas: uma é a vida como a vemos, como a sentimos, como a percebemos, como a queremos; a outra é como mostramos como a vemos, como a sentimos, como a percebemos, como a queremos. E estas duas últimas são sempre muito difíceis de explicar e de viver, pois as nossas vozes interiores têm um dialecto que para todos os outros comuns mortais é considerado como extraterrestre e por vezes até por nós próprios.
Posto isto, torna-se difícil dentro de todas as vidas que temos, escolher uma para documentar.
Principalmente, quando se é "jovem" (insira aqui a designação para esta palavra que melhor lhe convir) e maior parte da nossa vida ter sido maioritariamente vivida em sonhos. Até porque tomar uma decisão é algo que pode demorar uma vida.

Sunday, January 06, 2013

CCLD

Está comprovado que o consumo excessivo de leite tem praticamente os mesmos efeitos que a morfina e que uma paixão arrebatadora tem praticamente os mesmos efeitos que a cocaína.
Posto isto, um grupo de dependentes de elementos supostamente não tóxicos mas que os viciam, juntaram-se e formaram o clube dos consumidores de leite derramado.
Há vários tipos de consumidores de leite derramado.
Existem os sôfregos, que o consomem com uma palhinha, tentando sorver todas as gotas possíveis, para poderem sentir a nata colada ao céu da boca, de onde querem que ela nunca mais saia.
Há os que preferem lambê-lo directamente do chão, dando assim liberdade a suas línguas de poderem sofrer cortes que serão eternos, fortes como cortes de folhas de papel.
Há os que o deixam secar, para que se transforme em placas de leite azedo, que mais tarde poderão lamber como chupa-chupas sem validade.
Neste grupo encontramos poetas, artistas, saudosistas, recalcados e traumatizados.

Depois existem os intolerantes à lactose.
Os intolerantes à lactose e descendentes de felinos não se incomodam com o leite derramado.
Os intolerantes porque o leite lhes cai mal, mesmo que apenas sorvam pequenas partes, e os descendentes de felinos porque mesmo que o leite esteja caído no chão, não os impossibilita de o consumir, pois a sua língua áspera que também os ajuda a sarar as feridas que o mesmo metaforicamente lhes possa causar, não tem barreira alguma em sorver líquidos que toquem o chão, a realidade.
Estes embora se tentem integrar no grupo com o intuito de conhecer os verdadeiros consumidores de leite derramado e de os tentar chamar à razão, são imediatamente banidos à entrada.
Estes olham o leite, cheiram o leite, molham o dedo e provam o leite.
Cai-lhes mal, pegam na esfregona, limpam o leite, lavam o balde e a esfregona.
Neste grupo encontramos poetas, artistas, saudosistas mas realistas.

O clube é exclusivo, encoraja-se a saída, mas não se encoraja a entrada.

Wednesday, November 07, 2012

Castelos de saliva

Olhei para o espelho e vi um panda.
Um panda esbranquiçado de olhos negros.
- Levei dois murros de tédio - disse-me ele, enquanto continuava a escurecer a boca desenhando um sorriso rasgado que pouco jus fazia ao seu estado de espírito.
Nunca tinha visto um panda como este. Aliás, sem ser no Jardim Zoológico, acho que nunca tinha estado tão perto de um panda.
Toquei-lhe nas costas, mas pouca carne havia. Na verdade, as minhas mãos apenas sentiram ossos, que mais me pareciam pedaços de bambu.
Apenas as bochechas eram salientes, pois o coitado era muito magro.
Dei-lhe couves de Bruxelas envolvidas em natas com pimenta preta para comer, mas em três tempos as vomitou.
- Talvez não tenha escolhido a melhor refeição para dar a um panda - pensei eu.
Mas ele não se mostrou muito incomodado. Ao que parece era um movimento natural do seu corpo a que já se tinha habituado.
Limpou a boca, deu um gole numa garrafa de água, e retocou os lábios.
Era um panda bonito, e embora tivesse os olhos visivelmente feridos pelo tédio, conseguia pegar nessas feridas e lambê-las com muita saliva para construir castelos que derrubassem o aborrecimento que emoldurava o espelho onde nos víamos.
Enquanto se pintava e fazia caretas, eu entretinha-me a conversar com ele. Quando dei pelas horas já estava na hora que tinha definido como hora de ir dormir.
Pousei o espelho, lavei-lhe a cara, e juntos sonhámos.

Permanente sobre papel

Estava a matar o tempo com papéis e bonecos quando te vi estendida no chão. Sozinha ali dormias, à espera que o teu amo te viesse buscar. Peguei em ti, descobri o teu manto cinzento e olhei perplexa o teu frágil bico.
Um bico fino, longo, e uma língua preta como a dos Shar-peis.
Exibi-te a todos e guardei-te junto ao meu peito.
Agora és minha.
Róis-me os nós dos dedos mas ainda assim, que prazer me dá ver-te a lamber os papéis com que costumava brincar para matar o tempo.

Thursday, October 25, 2012

Outro Inverno

Digo mais!
Se eu soubesse desenhar, desenhava mais dos meus sonhos. Discotecas com chão de relva e postes de betão. As minhas pernas com pelo menos mais cem músculos. Corpos em que o rabo faz também a parte da frente do corpo.
Se soubesse filmar, filmava o momento em que saio do banho, e em que a minha gata se põe debaixo da minha toalha, e se agacha entre os meus tornozelos e os meus joelhos. Filmava também esse momento sem a minha gata, em que os fios dos meus cabelos pingam sobre os meus dedos dos pés, onde reflicto se quero tomar outro banho, ou se deva mudar a cor do verniz que tenho nas unhas dos mesmos. Filmava dois amantes a partilharem a mesma cama em sono profundo, e focava-me na troca de posições e abraços.
Se soubesse cantar, cantava as piores covers do mundo, mas sempre com muito sentimento, sem nunca explicar porquê. Cantava em canis e gatis. Cantava na fila da sopa dos pobres. Cantava no autocarro, cantava junto ao mar. Cantava para os meus sobrinhos.
Se soubesse nadar, atravessava o canal inglês. Nadava do Tejo até ao lago onde as medusas não nos fazem mal e apalpava-as todas até apresentarem queixa.
Isto de sonhar muito deixa-me a boca oleosa.

Wednesday, October 17, 2012

Um Inverno

Se eu soubesse desenhar, desenhava tudo o que vejo nos meus sonhos.
Montanhas enormes, edifícios modernos com elevadores capazes de fazer curvas e contra-curvas e que não obedecem à mão humana.
Pautas de música cheias de notas e melodias que não consigo cantarolar nem tocar.
Gatos ainda bébés com dentes afiados e pés de cabra.
Desenhava também as minhas variações de humor e os vários estados de espírito por que passo.
A vontade súbita de vomitar que me dá, quando o cinzento dos dias cai sobre os meus ombros e me os massaja, até os meus pés se enterrarem no solo.
A alegria que sinto quando estou junto de quem amo, que é tão forte que se demonstra em lágrimas interiores que me enchem os maxilares.
Desenhava também o perigo que eu vejo em passar sobre o viaduto Duarte Pacheco e os meus passeios nos tectos daquele edifício cheio de plantas, arbustos e relva. Desenhava a casa amarela que fica no final do viaduto, como eu acho que ela é por dentro. Uma fachada.
Desenhava o efeito que um café pingado tem em mim, em dias que só me apetece definhar.
Desenhava os pensamentos todos cá para fora para que pudesse arranjar espaço para novos.
Desenhava pensamentos, actos e acções como se ainda soubesse o que é ir à missa.
Se eu soubesse desenhar, desenhava isto e o que ainda me falta sonhar, cheirar, viver, beber.
Se não fossem os "ses", a minha vida era um Inverno.

Monday, October 08, 2012

Café e mais cigarros

A minha musa inspiradora já só me visita de vez em quando.
Por um lado agradeço-lhe, porque das poucas vezes que me visita tremo de medo que venha para ficar mais  tempo e isso faz com que o tempo passe ainda mais devagar e ela me arraste nos seus passeios aborrecidíssimos.
Por outro lado, às vezes tenho pena que não apareça mais vezes ou que quando o faz, o faça com menos intensidade. A inspiração que ela me traz, traz-me também mais força no pulso direito e desata-me o nó na garganta. Nó esse que se manifesta pelo pulso.
Contas feitas e insatisfeitas, chego à conclusão que esta musa inspiradora, só dura enquanto há dor.
Preparo-lhe um café bem forte, e espero que a volta ao estômago a apresse a sair daqui.

Monday, September 03, 2012

Toma as palavras, agora constrói a história

É engraçado como a maior parte das pessoas tende a encontrar via inconsciente ou coincidência, mensagens, ambientes, sinais ou pessoas, que vão de encontro e acordo com o seu estado de espírito.
Cheguei à estação de metro do Marquês de Pombal.
Domingo, 21h30.
Um metro havia partido.
A estação estava vazia, de um lado e do outro.
Só lá estava eu.
Só lá estive eu durante largos minutos.
Sem som.
Só eu e aquelas paredes velhas.

Sunday, September 02, 2012

Cartas ao futuro

Passou-se quase um ano desde a última vez que te toquei.
Nesse último ano, vi-te muitas vezes ao longe.
Senti o teu cheiro, vi fotografias tuas, sonhei contigo, senti falta do teu abraço.
Era quase noite, resolvi ir ter contigo.
Recebeste-me como se nem um dia da minha ausência se tivesse passado.
O teu cheiro, a lua reflectida nas tuas costas, o teu toque, nada mudou.
Eu também não mudei. E mesmo que tivesse mudado, tu aceitavas.
Nunca te vi revoltado contra mim, e aceitava isso melhor do que se fosse outro qualquer.
Mergulho para dentro de ti, e fazemos amor.
Eterno.

Friday, July 27, 2012

Não marques nada

Encontra-me no sítio mais bonito da cidade.
Encontra-me onde a chuva que cai é lilás, a minha cor favorita.
Encontra-me onde o castanho madeira roça o verde velho, e o enferrujado roça o seco.
Encontra-me onde os cascos de madeira jogam ao coito, e não saem do seu poiso, rodeados pelos filhos da chuva e as pedras da calçada.
Encontra-me onde o verde quase branco enfeita a cabeça daquela miúda, que num chão imenso estica a perna direita para trás, como se fosse uma ginasta.
Encontra-me atenta e curiosa, separada do sítio mais bonito da cidade, por uma máquina que temo.
Encontra-me agora nos meus sonhos.

Sem entradas

A última estória que contei sobre alguém, tornou-se realidade.
A minha imaginação, o meu tacto sensível e a tinta da minha caneta, encontraram-se num ponto em que o futuro era tão fácil de prever, que a estória fluiu naturalmente.
Gostava de contar mais estórias que me contassem e prevenissem sobre o futuro, mas às vezes o que achamos que é mais previsível, é exactamente o oposto.
Se quisesse contar uma estória sobre ti, acabavas a limpar as tuas lágrimas ao cachecol que havia esquecido em tua casa.
Não conto, pois nem sequer sei o teu presente.
Bem vistas as coisas, nem o quero saber, nem o quero contar.
Guardo a tinta para os chocos.

Saturday, July 21, 2012

Seja uma figura na linguagem

Quando crescer vou vender metáforas em frascos, a copo e a avulso.
As metáforas são um óptimo escape para quando não temos tomates para dizermos o que queremos; para quando o cinismo e o desprezo se entrelaçam na nossa língua e comandam o nosso discurso social; para quando estamos cansados de ser sinceros e isso sair pior do que coisas entrelaçadas na língua ou tomates ainda verdes.
"Toma disto, engole aquilo, chupa aqui.
Rende-te à minha medicina ou desaparece.
Faz o que quiseres, mas não me apareças à frente se não reúnes as poucas condições que me fazem crer no pouco valor que têm os animais racionais, ditos humanos.
Obrigada, volte sempre."

Tuesday, July 10, 2012

Falta(s-me)

Se há textos sem lógica, como um quadro abstracto que nos permite trabalhar o conhecimento e a nossa imaginação, também há textos sobre tentar descobrir uma lógica onde não há, para tentar obedecer  a esse princípio que move quase todos os homens que é procurar uma lógica em quase tudo o que fazem.
Porque estamos aqui, porque comemos, porque amamos, porque sofremos, porque indagamos, porque sorrimos, porque choramos, porque temos um dialecto e uma cultura diferente de outros habitantes deste mesmo planeta. Porque sentimos saudades.
Porque sentimos saudades do que não conhecemos?
Porque sentimos saudades de um passado que mal vivemos e de um futuro que não sabíamos se iríamos viver?
Porque batalhamos em busca de uma felicidade ao invés de nos contentarmos com a que temos?
Porque já não temos idade para isso. Porque começamos a crescer e a achar que já é altura de nos satisfazermos e tentar agir segundo as nossas crenças embora possam ser inalcançáveis, por serem contrárias às da maioria.
E um dia, na terceira idade, nós insuportáveis, teimosos e rigorosos para com os nossos princípios e as nossas crenças, aí sim, seremos felizes.
Então a minha lógica ilógica é esta.
E continuarei a sentir saudades tuas, quem não conheci.

Monday, June 18, 2012

O autocarro

Troquei o barulho do motor pelo silêncio massivo que se fazia sentir.
Ouviam-se pés a raspar no chão, janelas a tremer, respirações profundas e uma outra tosse de vez em quando.
Troquei este silêncio de palavras pelo silêncio que não se ouvia.
Ouviam-se listas de supermercados, canções populares portuguesas, sonhos perturbados pelos três silêncios que se faziam ouvir, memórias do passado e problemas do futuro.
Juntei os três silêncios e era uma sinfonia inaudível.
Tanto problema com os silêncios entre estranhos, mas aqui é como todos se conhecessem e respeitassem o espaço e silêncio de cada um.

Thursday, May 17, 2012

As cartas dela


Tinha ela cerca de 30 anos quando a conheci. Eu era um pouco mais novo.
Trabalhava satisfazendo as delícias dos discípulos de Baco. Nas minhas horas vagas, alternava entre afiar as unhas na guitarra e limá-las num caderno.
Conheci-a no meio da rua, quando me perguntou quais eram as músicas de que gostava mais.
Indaguei-me de onde teria aparecido, mas ela ignorava o que eu dizia, e continuava a querer falar comigo, deixando-me curioso.
Ouvimos música juntos, discordámos, rimos, abraçámo-nos.
Contou-me a sua história, eu contei-lhe a minha. 
Do pouco que me ouviu, não sei o que reteve.
Sem termos forma de nos contactar, a única maneira que tinha de a ver, era quando me procurava.
Via-a de tempos a tempos, sempre com um sorriso na cara.
O seu riso era contagiante, mas a sua tristeza era também bastante palpável.
Não sei que espécie de conforto encontrava em mim, mas era notório que o encontrava.
Um dia, entre licores dos deuses e cigarros perdidos, perguntou-me se queria partir com ela para o país vizinho, em busca de novas vivências.
Naquele instante decidi aceitar. Não me arrependi, até porque sempre fui uma pessoa que gostou de conhecer novas culturas, de viver aventuras, de experimentar novos sabores.
Fiz as malas e esperei-a junto dos comboios.
Partimos rumo a uma vida nova, uma terra nova, uma língua nova.
Não sabia muito bem o que esperar. Não me queria envolver com ela, pois não me parecia uma pessoa consistente, apesar de me parecer uma pessoa muito apaixonada.
Corremos campos, bares, teatros, casas, sofás, tascas, praias; viajámos a pé, de tractor, de barco.
Abraçámo-nos em fotografias, compusémos músicas juntos.
Dançámos e bebemos sem temer o dia seguinte.
Mas algo não a fazia esquecer a tristeza que ela própria havia implantado em si.
Uns tempos depois, acordei com ela a preparar-me o pequeno-almoço com um sorriso novo.
Quando lhe perguntei o que se passava, recebi uma resposta que não estava à espera.
Pediu-me que escrevesse cartas à sua família.
Havia partido sem deixar rasto, e não queria mais comunicar com quem sempre a estimou.
As suas razões não eram óbvias, mas em contexto fariam sentido.
Estava farta de respirar. Estava farta disso e não tinha coragem para o dizer à família.
A solução que tinha encontrado era esta. Que eu escrevesse cartas para a família dela. Que as escrevesse até que eu decidisse quando morreria.
Dava-me um papel para a mão que eu não sabia se conseguia ter.
Queria que eu vestisse uma personagem que dentro em breve deixaria de respirar.
Sempre preservei a liberdade. Sempre respeitei as ideias dos outros, esta é a minha maneira de me sentir livre, e de poder dar liberdade aos outros, a liberdade que tanto desejam.
Disse-me que iria partir, em busca de um sítio onde se sentisse confortável, completa e feliz.
Esse foi o meu trato com ela.
Que me enviasse uma carta ou um postal assim que encontrasse o paraíso que procurava, e eu então enviava as cartas para a família dela.
O sol brilhava entre os vales e o reflexo do meu copo na mesa foi apagado por uma mão que pousou um postal.
Era ela.
Havia encontrado o seu sítio confortável.
Descrevia-o como sendo mais bonito que as serras na primavera, as faces das crianças e mais suave que o toque do mar nas nossas mãos.
Despedia-se com um abraço profundo e junto com o postal vinha um embrulho grande.
Um pedaço de barro esculpido.
Uma mão que tocava num peito.
A mão dela no meu peito.
Perguntei-lhe quando nos voltaríamos a ver, ela respondeu "Não sei, não sei se te quero voltar a ver, tenho medo de me apaixonar por ti".

Ela saíu do quarto, e afinal quem desapareceu fui eu.
E nunca disse adeus.

Cortar laços com alguém

Uma frase simples, sem palavras negativas, com um ornamento bonito, e um sujeito qualquer.
Com menos 50cm, a visualização desta frase, seria como a inauguração de um espaço em que por exemplo, um presidente de uma junta de freguesia tem uma tesoura grande, como aquelas que se usam para podar arbustos, e com uma simples tesourada, desfaz o belo laço vermelho que vai abrir um caminho para se poder desfrutar de um novo espaço.
Com mais 50cm, a visualização que tenho desta frase, continua a ser mais ou menos igual.
A diferença é que agora a tesoura está enferrujada, o laço é bonito demais, e o prédio por detrás do mesmo, ameaça cair.
Já não acho a frase bonita, nem acho que faça juz ao seu sentido.
Num mundo em que a imaginação prevalecesse à realidade e fosse dada a escolha entre uma acção ou outra, era bem possível que muito mais pessoas cortassem laços umas às outras, com a esperança dúbia que um dia mais tarde pudessem dar um nó nesse laço desfeito.
Haveria então mais lugar para o arrependimento e uma maior dôr.
Que tal acabarmos com as frases feitas que nos tentam embelezar a vida?
Todos nós sabemos que a vida é mais cruel do que isso.
E atirar areia para os olhos de alguém com menos 50cm do que nós, não é menos cruel.

Monday, May 07, 2012

P'ra ti que me massajas

O céu é amarelo e massaja-me a barriga.
Deitado de costas, ouço a chuva cair.
Tenho sombras que me afagam os pés, e uma maior que me segura a cabeça para que não caia.
Às vezes ouço carros a passar, outras vezes crianças que brincam.
Quase sempre os passos são acelerados e quase nunca ouço a voz de quem me massaja.
Vozes várias alimentam o meu imaginário.
Ouço muitas histórias, sinto muitos cheiros, brisas, mas nunca falo sobre eles.
Dou-os todos a guardar, e deixo que decidam o que conto.
Falo à medida que penso, e às vezes sinto o sabor a tinta na minha boca.
E assim vivo eu.
 
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