Um dia destes escrevo uma a sério. É que todas as noites o faço, só que o inconsciente liga-me directamente ao sono, e deixa-me o corpo dormente, de maneira que pegar numa caneta e num caderno se torna extremamente difícil.
Tuesday, March 20, 2012
Histórias de embalar
Uma história de embalar, das duas uma: ou deveria ser uma história enfadonha de modo a nos causar e dar sono; ou uma história incompleta, p'ra que quando fechássemos os olhos, pudéssemos imaginar o resto da história, até os nossos pensamentos conscientes se misturassem com os do inconsciente e acabássemos eventualmente por adormecer.
Friday, March 16, 2012
Crianças..
Cada vez mais adoro a inocência das crianças.
Uma criança que não me conhece, que corre para o meu colo, me abraça e me dá um beijo, talvez porque tenha simpatizado com o meu rosto ou com o meu sorriso, é um dos actos mais puros a que já assisti.
Admiro-lhes a inocência e tenho pena que a mesma não seja administrada inconscientemente a mais adultos.
Adoro beijar uma criança na face, fazer-lhe festas no cabelo e tê-la ao colo, mesmo que sejam momentos de silêncio.
O crescimento tira-nos esta inocência, e um gesto destes com um adulto, incita logo maldade e segundas intenções.
Tenho pena.
Porque até há dias em que gosto de humanos já crescidos.
Wednesday, March 14, 2012
Poesia concluída
A poesia que há num copo de vinho pronto a ser degustado, só é mais bonita que num copo de vinho vazio, porque quando a alma se enche e os lábios não cerram em alguém que não teme o que diz, as palavras não vibram oralmente.
Saturday, February 25, 2012
Este sou eu
Só passou um minuto e parece que estou aqui à uma eternidade.
"Pára de escrever e conversa comigo", disse-me ela."Deixa de estar como gostas e vem ouvir os meus problemas infindáveis. Justifica a minha presença neste local e põe-me um sorriso na cara", quis ela dizer.
E assim o fiz. Guardei o caderno e fui dançar, numa dança macaca que a animava enquanto viajava no meio de todos os seus problemas.
Dois dígitos depois da casa dos dez
Porque é que não posso fazer as perguntas que quero?
Porque é que não posso saber as respostas correctas e os sentimentos verdadeiros?
Porque é que as pessoas insistem em negar o que sentem? Será por medo da repressão que poderão sentir?
Será isto a crise da meia-idade dos porquês?
Porque é que quando exponho o que sinto as pessoas se afastam? Será um ar assim tão pesado?
Ontem imaginei um mundo
Estou farta destas cores.
Estou farta das sombras das pessoas.
Apetecia-me entrar num sítio em que fossem todas círculos, quadrados ou triângulos.
Estou farta dos erros que toda a gente comete.
Estou farta de errar e farta de pensar.
Estou farta que haja explicações rápidas para coisas que não têm explicação.
Estou farta dos mesmos movimentos de anca, farta dos braços levantados a segurar um copo, farta das músicas sempre o mesmo sol e dó.
Tenho dó disto tudo porque não vejo sol nenhum.
Está tudo escuro e feio.
Thursday, February 16, 2012
Question
Será que os espelhos nos enganam a vista como a nossa voz engana os nossos próprios ouvidos?
Thursday, December 29, 2011
Sonhos
Gostava que os meus sonhos fossem a minha vida.
Não para os viver, pois são caricatos ou assustadores.
Mas sim porque a minha vida são só sonhos, e estou farta de não os viver.
São iguais aos que se comem.
Doces, dá-se uma trinca, e puff.
Num instante eles desaparecem, e de repente, já estou cheia de fome.
Não para os viver, pois são caricatos ou assustadores.
Mas sim porque a minha vida são só sonhos, e estou farta de não os viver.
São iguais aos que se comem.
Doces, dá-se uma trinca, e puff.
Num instante eles desaparecem, e de repente, já estou cheia de fome.
Wednesday, December 14, 2011
Letra k
É tipo um livro ou filme, que lemos ou vemos e com que nos identificamos.
Estou tão confusa em relação à minha identidade e ao meu propósito enquanto ser humano, que toda a gente me troca o nome.
Estou tão confusa em relação à minha identidade e ao meu propósito enquanto ser humano, que toda a gente me troca o nome.
O livro de multas
Sacou do livro de multas e voltou a autuar-se.
Cada letra, cada palavra, cada texto, uma acta.
Uma lição da professora para levar para casa por se ter portado mal.
Às vezes gostava de ter uma lente atarrachada ao livro para que pudesse fotografar o momento em que se estava a atuar.
Não era por sentir pena de si própria que se autuava. Mas sim, para relembrar mais tarde, as parvoíces em que se banhava.
Cada letra, cada palavra, cada texto, uma acta.
Uma lição da professora para levar para casa por se ter portado mal.
Às vezes gostava de ter uma lente atarrachada ao livro para que pudesse fotografar o momento em que se estava a atuar.
Não era por sentir pena de si própria que se autuava. Mas sim, para relembrar mais tarde, as parvoíces em que se banhava.
Monday, December 12, 2011
Uma anormal num pedestal
Jazia estendida, fria e sem feições.
Rasgando-lhe a carne tentavam decifrar os seus segredos.
Os ombros contavam nós infinitos, incapazes de se desmembrarem.
Nós grossos, como o peso da idade e das preocupações que não se desfaziam.
A única solução seria escavar a carne dos mesmos até se encontrar os pequenos ossos que os suportavam.
Tinha ombros tensos que caíam sobre as costas marrecas que se dobravam até aos joelhos numa tentativa de beijarem o chão.
O canal respiratório era minúsculo.
Tinha o diâmetro de uma palhinha, por ter deixado de utilizar a boca tantas vezes e utilizar somente o nariz para respirar.
Os pulmões eram negros, secos e magros, como o ar que respirava.
O coração apresentava várias escoriações e encontrava-se envolto num líquido gelatinoso em tons de ferrugem.
O estômago era uma fina película, que unia as costas com a barriga, e tinha toda uma espécie de fungos ao abandono.
O sistema reprodutor era o único que se encontrava são. Ironia.
Os pés eram chatos, mostravam-se calejados e com feridas abertas por os arrastar tentando cavar a terra que pisava.
A boca era uma miséria.
As gengivas encontravam-se desfeitas, e confundiam-se dentes com maxilares, pela ausência de uns, e presença visual em demasia dos outros.
A boca estava colada com uma viscosidade que parecia seiva.
Ao abri-la, desfez-se em pedaços. O odor era intensamente mau. Um cheiro terrível a enxofre.
Das cordas vocais só sobrava uma, resistente à sua apatia geral.
Os dedos eram velhos e enrugados, e as unhas garras amarelas, duras e fortes, nas pontas lascadas.
Após uma análise sem sucesso, taparam-na com um lençol, envolto em mistérios que não quiseram ser percebidos.
Rasgando-lhe a carne tentavam decifrar os seus segredos.
Os ombros contavam nós infinitos, incapazes de se desmembrarem.
Nós grossos, como o peso da idade e das preocupações que não se desfaziam.
A única solução seria escavar a carne dos mesmos até se encontrar os pequenos ossos que os suportavam.
Tinha ombros tensos que caíam sobre as costas marrecas que se dobravam até aos joelhos numa tentativa de beijarem o chão.
O canal respiratório era minúsculo.
Tinha o diâmetro de uma palhinha, por ter deixado de utilizar a boca tantas vezes e utilizar somente o nariz para respirar.
Os pulmões eram negros, secos e magros, como o ar que respirava.
O coração apresentava várias escoriações e encontrava-se envolto num líquido gelatinoso em tons de ferrugem.
O estômago era uma fina película, que unia as costas com a barriga, e tinha toda uma espécie de fungos ao abandono.
O sistema reprodutor era o único que se encontrava são. Ironia.
Os pés eram chatos, mostravam-se calejados e com feridas abertas por os arrastar tentando cavar a terra que pisava.
A boca era uma miséria.
As gengivas encontravam-se desfeitas, e confundiam-se dentes com maxilares, pela ausência de uns, e presença visual em demasia dos outros.
A boca estava colada com uma viscosidade que parecia seiva.
Ao abri-la, desfez-se em pedaços. O odor era intensamente mau. Um cheiro terrível a enxofre.
Das cordas vocais só sobrava uma, resistente à sua apatia geral.
Os dedos eram velhos e enrugados, e as unhas garras amarelas, duras e fortes, nas pontas lascadas.
Após uma análise sem sucesso, taparam-na com um lençol, envolto em mistérios que não quiseram ser percebidos.
Sunday, December 11, 2011
Traços direitos em dias tortos
Um traço, outro traço, outro traço..
Já fiz uns seis traços hoje, e nenhum deles me apaziguou a puta da dor de cabeça que tenho.
Enrolo mais um cigarro, bebo mais duas cervejas e meia, fecho a conta e vou p'ra casa, deixando o sorriso numa valeta qualquer e encostando a apatia na almofada.
Sete traços agora.
Já fiz uns seis traços hoje, e nenhum deles me apaziguou a puta da dor de cabeça que tenho.
Enrolo mais um cigarro, bebo mais duas cervejas e meia, fecho a conta e vou p'ra casa, deixando o sorriso numa valeta qualquer e encostando a apatia na almofada.
Sete traços agora.
Saturday, November 26, 2011
20 copos a troco de tostões depois..

Às vezes acho incrível só poder ver o mundo através dos meus olhos.
Vejo toda a gente, vejo-lhes a cara, os olhos, as expressões, etc.
Nunca vejo a minha.
Vejo a minha mão direita a escrever, a esquerda a largar a cinza do cigarro.
Os meus olhos focam tudo o resto, menos aquilo que eu quero ver.
Esta linda personagem que escreve.
Saturday, November 19, 2011
Friday, November 18, 2011
Vem com unhas afiadas
Tenho o coração a tentar rasgar-me o peito, e eu não sei com que cara lhe diga que ainda não é hoje.
Em princípio não é hoje.
Não sou eu que o dito.
Mas o gajo pula, pula, e não pára quieto.
Já não sei como o amansar, como o acalmar.
Como acalmar a inquietude dele.
Tento distraí-lo, mas quando sou eu que estou distraída, o gajo chateia-me outra vez.
Já tenho o peito todo arranhado.
Temo que um dia me rasgue o seio, só para poder espreitar cá p'ra fora, e tentar ver pelos seus próprios olhos, o que é que me prende.
Em princípio não é hoje.
Não sou eu que o dito.
Mas o gajo pula, pula, e não pára quieto.
Já não sei como o amansar, como o acalmar.
Como acalmar a inquietude dele.
Tento distraí-lo, mas quando sou eu que estou distraída, o gajo chateia-me outra vez.
Já tenho o peito todo arranhado.
Temo que um dia me rasgue o seio, só para poder espreitar cá p'ra fora, e tentar ver pelos seus próprios olhos, o que é que me prende.
Wednesday, November 16, 2011
"De onde venho, pouco importa."
"Porque é que escreves?" - perguntou-me ele.
"Porque fumas?" - perguntou-me ele.
"O chá está bom?" - perguntou-me ele.
"O que é que gostas de fazer?" - perguntou-me ele.
Apeteceu-me responder: "Gosto de fumar, beber chá e escrever. Mas isto tudo, sem ti."
Cortei a parte final e mantivémos uma conversa ridícula até eu acabar o chá e lhe virar costas, deixando-o como o encontrei.
Sozinho e confuso.
Olhe amigo, passa a dois!
"Porque fumas?" - perguntou-me ele.
"O chá está bom?" - perguntou-me ele.
"O que é que gostas de fazer?" - perguntou-me ele.
Apeteceu-me responder: "Gosto de fumar, beber chá e escrever. Mas isto tudo, sem ti."
Cortei a parte final e mantivémos uma conversa ridícula até eu acabar o chá e lhe virar costas, deixando-o como o encontrei.
Sozinho e confuso.
Olhe amigo, passa a dois!
pequenas criaturas
Dedos de criança que enrolam cigarros.
Lábios de menino, que sorvem o vinho.
Eles trazem seus sonhos, esperanças e fardos.
Eles deixam-me aqui, brincando sozinho.
Lábios de menino, que sorvem o vinho.
Eles trazem seus sonhos, esperanças e fardos.
Eles deixam-me aqui, brincando sozinho.
Tuesday, November 08, 2011
Cristina & Sónia
Tina não atinava, e Sónia não sonhava.
Entre juras de amor, trocaram beijos e promessas.
Esta é a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Tina vivia de dia.
Levantava-se cedo, alimentava-se de vitaminas e namorava o sol com seu largo sorriso.
Era vivaça, queria sempre mais, porém temia sair de casa à noite, o que tornava os seus dias cada vez mais curtos.
Deixava-os afundarem-se em horas perdidas, minutos gastos, movimentos ténebres e assustadiços, sempre com receio que sua vida passasse e nada fizesse.
Enquanto ela se preocupava, o dia passava, e quando o dia passava, a noite surgia.
Sónia adorava a noite.
Sentia-se criativa, glorificava o dia passado - ainda que infortuno - e abraçava os lençóis com uma força enorme, para poder amar em descanso, o repousar de seu corpo.
Mas o corpo não queria descansar.
O corpo queria mais.
O corpo queria actas.
Actas diárias, as quais Sónia não sabia preencher.
Tal como Tina, Sónia vivia na esperança de que chegasse a noite, mas esta para que pudesse chegar outro dia, e tornasse a anoitecer.
O fardo para ambas era tal, que em horários inversos se passeavam pela cidade, em busca de sinais que pudessem acelerar ou estagnar o tempo.
Num dia em que o pôr-do-sol se atrasou, Tina e Sónia trocaram olhares.
Olhares pesados que eram iguais.
Olhares caídos que queriam conforto.
Olhares devastados, que queriam compreensão.
Foi neste horizonte que trocaram palavras, pensamentos e horas.
Entre cafés, chás e torradas, o tempo permitiu que se expusessem uma à outra.
Sónia sentia-se desgastada pelo peso de seus olhos, Tina desgastada por não os querer fechar.
Juntas caminharam dias adentro, galgando minutos que pareciam eternos, e vivendo sonos em nada efémeros.
Viviam na felicidade de terem encontrado uma alma oposta e ainda assim, gémea, que as completava.
Juntas destruiram relógios, partiram persianas, queimaram cortinados.
- Que o sol e a lua entrem em nossas casas, como a nossa luz perpetuou a noite e o dia!
Os dias corriam ferozes, as semanas comiam as tardes, e as noites sugavam os meses.
Anos passaram, e rumando à felicidade, Tina e Sónia resolvem adoptar uma criança para viver em seu mundo cromático.
Inês de seu nome, trazia com ela o aspecto frágil e cansado das mães.
Por mais sóis, luas, solstícios que se passassem, nenhum raio de luz conseguia abrir uma fresta que fosse nos lábios daquela criança.
Tina e Sónia perdiam a esperança. O que as tinha unido era agora o que as queria separar.
Inês não cria no amor entre estas duas mulheres, e comparava-as frequentemente a azeite e água. Não conseguia conceber o amor destas duas pessoas tão distintas, que separadas eram um soro auto-destruitivo tanto para uma como para outra.
Discordava de suas ideologias e criticava suas "desrotinas" diárias.
O crescimento de Inês veio desenterrar o passado de Tina e Sónia.
Os dias começavam a ser mais curtos e as noites mais compridas.
Sónia já não sonhava, e Tina desatinava.
A casa dividiu-se em duas, e Inês engravidou.
Tina deambulava pela casa de pijama o dia inteiro, raspando a caspa de seus ombros e trincando bolachas de água e sal, enquanto aquecia o seu corpo com café bem quente, esperando que o final de tarde a forçasse a deitar-se para a fazer sonhar com um dia diferente.
Sónia de pijama andava também, com luzes baixas e fones colados aos ouvidos. Uma caneca de chá numa mão, um cigarro na outra, enquanto o rímel lhe escorria olhos abaixo à espera de uma amostra de sol, para que se pudesse ir deitar, e sonhar com uma noite diferente.
Inês afastou-se de suas mães. Fez-se uma mulher saudável e trouxe ao mundo uma linda menina chamada Luz.
Viviam os dias como deviam ser vividos, e seus lábios nunca mais fecharam.
Suas mães porém, nunca mais abriram os olhos.
Esta foi a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Entre juras de amor, trocaram beijos e promessas.
Esta é a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Tina vivia de dia.
Levantava-se cedo, alimentava-se de vitaminas e namorava o sol com seu largo sorriso.
Era vivaça, queria sempre mais, porém temia sair de casa à noite, o que tornava os seus dias cada vez mais curtos.
Deixava-os afundarem-se em horas perdidas, minutos gastos, movimentos ténebres e assustadiços, sempre com receio que sua vida passasse e nada fizesse.
Enquanto ela se preocupava, o dia passava, e quando o dia passava, a noite surgia.
Sónia adorava a noite.
Sentia-se criativa, glorificava o dia passado - ainda que infortuno - e abraçava os lençóis com uma força enorme, para poder amar em descanso, o repousar de seu corpo.
Mas o corpo não queria descansar.
O corpo queria mais.
O corpo queria actas.
Actas diárias, as quais Sónia não sabia preencher.
Tal como Tina, Sónia vivia na esperança de que chegasse a noite, mas esta para que pudesse chegar outro dia, e tornasse a anoitecer.
O fardo para ambas era tal, que em horários inversos se passeavam pela cidade, em busca de sinais que pudessem acelerar ou estagnar o tempo.
Num dia em que o pôr-do-sol se atrasou, Tina e Sónia trocaram olhares.
Olhares pesados que eram iguais.
Olhares caídos que queriam conforto.
Olhares devastados, que queriam compreensão.
Foi neste horizonte que trocaram palavras, pensamentos e horas.
Entre cafés, chás e torradas, o tempo permitiu que se expusessem uma à outra.
Sónia sentia-se desgastada pelo peso de seus olhos, Tina desgastada por não os querer fechar.
Juntas caminharam dias adentro, galgando minutos que pareciam eternos, e vivendo sonos em nada efémeros.
Viviam na felicidade de terem encontrado uma alma oposta e ainda assim, gémea, que as completava.
Juntas destruiram relógios, partiram persianas, queimaram cortinados.
- Que o sol e a lua entrem em nossas casas, como a nossa luz perpetuou a noite e o dia!
Os dias corriam ferozes, as semanas comiam as tardes, e as noites sugavam os meses.
Anos passaram, e rumando à felicidade, Tina e Sónia resolvem adoptar uma criança para viver em seu mundo cromático.
Inês de seu nome, trazia com ela o aspecto frágil e cansado das mães.
Por mais sóis, luas, solstícios que se passassem, nenhum raio de luz conseguia abrir uma fresta que fosse nos lábios daquela criança.
Tina e Sónia perdiam a esperança. O que as tinha unido era agora o que as queria separar.
Inês não cria no amor entre estas duas mulheres, e comparava-as frequentemente a azeite e água. Não conseguia conceber o amor destas duas pessoas tão distintas, que separadas eram um soro auto-destruitivo tanto para uma como para outra.
Discordava de suas ideologias e criticava suas "desrotinas" diárias.
O crescimento de Inês veio desenterrar o passado de Tina e Sónia.
Os dias começavam a ser mais curtos e as noites mais compridas.
Sónia já não sonhava, e Tina desatinava.
A casa dividiu-se em duas, e Inês engravidou.
Tina deambulava pela casa de pijama o dia inteiro, raspando a caspa de seus ombros e trincando bolachas de água e sal, enquanto aquecia o seu corpo com café bem quente, esperando que o final de tarde a forçasse a deitar-se para a fazer sonhar com um dia diferente.
Sónia de pijama andava também, com luzes baixas e fones colados aos ouvidos. Uma caneca de chá numa mão, um cigarro na outra, enquanto o rímel lhe escorria olhos abaixo à espera de uma amostra de sol, para que se pudesse ir deitar, e sonhar com uma noite diferente.
Inês afastou-se de suas mães. Fez-se uma mulher saudável e trouxe ao mundo uma linda menina chamada Luz.
Viviam os dias como deviam ser vividos, e seus lábios nunca mais fecharam.
Suas mães porém, nunca mais abriram os olhos.
Esta foi a bonita história de duas amantes que se viram separadas pela razão da incerteza.
Foste aos treinos? RM
Falar da boca p'ra fora,
assim espalho a minha dôr.
O que eu pensei outrora,
ouvidos de mercador.
Entra a cem sai a duzentos,
haja alguém que não se queixe.
Assim são meus pensamentos,
pela boca morre o peixe.
assim espalho a minha dôr.
O que eu pensei outrora,
ouvidos de mercador.
Entra a cem sai a duzentos,
haja alguém que não se queixe.
Assim são meus pensamentos,
pela boca morre o peixe.
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