Monday, May 25, 2009

enevoado

[num destes dias; provavelmente confusos.]

Andas-me a trincar os calcanhares
para ver se desfaleço
porque sabes que não estou em posses de cair.

Já vi o precipício,
senti o cheiro da terra molhada,
colhi as ervas daninhas
e desfiz-las em pedaços pequenos.
Para saborear o poder
que é não sentir mais nada.

Friday, May 22, 2009

o mar

por falar em mar, água, rio, gotas, lágrimas, taínhas, chuva, ondas e maresias..

Jimmy Cliff - Many Rivers To Cross

Monday, May 11, 2009

um punhado de palavras

[num domingo destes, à tarde]

Conheci um feto que cresceu, e hoje teria mais ou menos a minha idade.
Mas afoguei-o.
Afoguei-o em tragédias e dramas.
Afoguei-o em estórias deste mundo e do outro.
Estórias que se crê que sejam da minha cabeça.
Molestei-o tanto que me pediu que o afogasse.
Hoje, o seu corpo reside na terra.
Mas a sua alma não descansa.
Anda comigo para todo o lado.

Friday, May 08, 2009

Morrer Onde Não Quis Ter Nascido

Esta forma de estar é desconcertante.
Saberei eu o que é importante?
Viver ou guardar na memória
O calor do que já vivi?
Morrer talvez agora, só se for neste momento
neste auge do meu tormento.

Porque odeio toda a gente
quero amar quem não sei
percorra eu ruas ou galáxias,
seja quem me dói ou me desdém.
Porque odeio e não suporto
nem a mim nem a ninguém.

Só eu sei o que não quero saber
Ou prolongar.
Só eu sei que o Passado me foi...
luz
Que o Passado me é
fado.
Tudo fluía e agora pergunto-me:
A que foz fui dar?
Não sei nadar nestas
Águas estagnadas saturadas
Ora quentes ora frias;
Nestes mesmos quatro cantos
Ou mar onde morro e onde não sei
ser salmão e escapar;
Remar e remar corrente acima
E morrer onde nasci.

Filipe Costa Campos in Mar de Silêncios

Tuesday, April 28, 2009

isto são..

espasmos emocionais

tædium movere si

Sunday, April 26, 2009

vomitório

as palavras andam tão soltas a correr pela minha cabeça, que não as consigo apanhar e juntá-las.
já deixaram de fazer sentido. correm mais que eu. mais que um puto de 10 anos.
vou-me pôr a dormir.
pode ser que passe.

Thursday, April 02, 2009

ora essa..

Cinematic Orchestra - All That You Give



e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e ri-se, e chora-se, e chora-se, e ri-se..

Friday, March 27, 2009

lugar comum

"Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porquê, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos. (...)"

Estilo, Os Passos em Volta, 1963
Herberto Helder


cortesia de Fernando.

Thursday, February 12, 2009

só porque me apetece beber d'esta voz

The Organ - Let The Bells Ring


That's the way that it is. I live under a bell-shaped curve for being average. I know you have been wanting to mention... I dream of death because I'm dying for attention. and then my hopes soar in my hand, and climb up a mountain. and call the names of the people I know who will rock me in the end. Lie rest assured you'll have your own reverberate the walls. Lie rest assured you'll have your own reverberate the halls.

That's the way that it goes. I climbed so bloody high I couldn't stop my bleeding nose. I dream of death and it feels good so I cheat more. and when I spend, touching you's less of a chore. and then I take a soar, in my hand, and climb up a mountain, and call the names of the people I know who will rock me in the end. but lie rest assured you'll have your own reverberate the walls. but lie rest assured you'll have your own reverberate the halls.

Let the bells ring.
Let the bells ring.

Let the bells ring.
Let the bells ring.

Let the bells ring.
Let the bells ring.

Wednesday, February 04, 2009

Thursday, January 22, 2009

viaduto

neste mundo, onde a contradição não é uma coisa aceitável, é possível temer e amar a morte com a mesma força?

e amar a morte e a vida, e temê-las por igual?

Monday, January 19, 2009

palavras soltas neste quarto escuro

acordei cedo hoje, hein?



medo.
cobardia.
frio.
chuva.

Wednesday, January 07, 2009

algo para a noite

David Bowie - Wild Is The Wind




Love me, love me, love me, love me,
say you do
Let me fly away with you
For my love is like the wind,
and wild is the wind
Wild is the wind

You touch me, I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins
You're spring to me, all things to me
Don't you know you're life, itself!

Like the leaf clings to the tree,
Oh, my darling, cling to me
For we're like creatures of the wind,
and wild is the wind

Wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind

Monday, December 15, 2008

folhas soltas

mais um dia de pinturas.
foi-me informado que limpasse o armário.
ao invés, limpei umas gavetas e a secretária.
encontrei.. papéis de multibanco, bilhetes de autocarro/metro/comboio, flyers de eventos, releases de artistas portugueses, folhas pequenas, folhas grandes, folhas fartas, tudo escrito até a ponta da caneta (ou do lápis) se cruzar com o horizonte da folha.

nelas.. palavras sem sentido. prossegue o estudo.
(o começo com a frase já mais que batida: "cada vez mais se torna insuportável respirar neste mundo". neste mundo insano, acrescento.)

Enquanto a cabeça esvoaça, e o sorriso teima em rasgar para o erguer de um novo dia, o coração palpita ferozmente e as fossas nasais entopem.
O corpo passa a ser mais uma máquina, porque a alimentação que lhe é servida, de manhã, ao almoço, e ao jantar, está poluída de futilidades, egoísmo, e malícia.
O soro que salva esta vida é incerto como o tempo.
Como o frio, como a chuva, como a trovoada, como a neblina, como o sol, como o calor, como a lua..

Tuesday, November 25, 2008

confidências

vasculhando entre velhos papéis neste antro onde durmo, encontrei um postal que me fora enviado em outros tempos. 1998, penso.
nele, entre tantas outras coisas vem um P.S. que diz o seguinte:
"não penses demais nas coisas: sente-as."

Monday, November 17, 2008

ode às taínhas

suja como a taínha.
essa que não me compreende, lembras-te?
eu suja como a taínha, e ele?
puro.
do mais puro que já conheci.
não o posso sujar.
quero-me limpar mas estas escamas não me saem.
falta-me a lingua aguçada para as limpar, os dentes saudáveis para as roer.
por mais que tente, esta sujidade não sai.
esta demência não tem cura.
não me posso misturar.
é como as taínhas. não se misturam com o mar.
se há as que se misturam, então é para lá que vou. para me limpar.
mas não sei onde é.
eu bem tento falar com elas, pode ser que me ouçam.
mas nem com a demência potenciada ao máximo elas me ouvem.
limitam-se a nadar a nadar a nadar, em busca de nada. ou em busca de tudo. e não encontram. morrem.
libertam-se?
não sei.
vou continuar a nadar? não sei.
se calhar vou procurar esse tal mar.
azul, primário.
gosto demasiado de vocês para vos fazer mal.
vou nadando. boiem.

Saturday, November 15, 2008

d'O louco

Além-Tédio

Nada me espira já,nada me vive
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, enfim d'alma esquecida,
Dormir em paz num leito d'hospital...
Cansei dentro de mim,cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu...Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes,mais esguios...

Mário de Sá Carneiro

Wednesday, October 29, 2008

dôr

dói-me tanto.
sinto a carne a rasgar, a cabeça a inchar. as lágrimas caem, os maxilares desdobram-se em mil. a dôr não passa. anda adormecida.
afastem-se de mim, deixem-me passar. finjam que não estou cá.
idolatrem a minha máscara, mas não se aproximem
imaginem uma redoma em torno da minha pessoa. intocável. como a maçã de adão. envenenada.
leiam relatos, catástrofes.
desenganem-se aqueles que me dizem que tudo isto é minha ilusão.
nada é ilusão se não tem um porquê.
se tem um porquê é real, pode-se apalpar, mexer, consertar.
mas aqui não há um porquê, não há uma explicação. não há um kharma justificável.
não sabemos por que vidas andamos a pagar. não sabemos os erros que cometemos, se os que cometemos não foram graves. foram humanos.
sempre ouvi dizer que tudo torna para nós. todo o mal que distribuímos torna para nós.
eu não sei do meu.


hoje é o papel da vítima. normalmente é o outro.
há que ser original.

Kings Of Leon - Closer


nota: precisa-se paciência. já não há sono que me ature, lençóis que me embrulhem com gosto, nem letras que vomitem o que sinto. estou aborrecida, apática, sem forças.

Tuesday, October 21, 2008

Mãe

Aldina Duarte - Mulheres ao Espelho [2008]



Mãe
Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada
Daquilo que disseste quando os meus seios começaram
A crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
Murcharam tão depressa as rosas que me deram -
Se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
Deves lembrar-te porque disseste que isso ía acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
Cheios de pedras e de terra; e quando fecho os olhos,
Só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
Que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
Os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,
Deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
E o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre
Caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
Não chames pelo meu nome, não me peças que fique -
As lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
Embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
De uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
Uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem
Nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
Hora as ruas desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
Essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre
O meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
Foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
Tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
Virão já amanhã, mas desta vez, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira










[nota: não é dedicado à minha mãe. é dedicado a outros. aos sonhadores, aos iludidos. aos perdidos, aos que acreditaram, aos que continuam a acreditar. aos solidários, aos solitários, aos saudosos. aos infelizes. que se fodam os felizes. aos egoístas. gente feliz deve ser aquela que nunca se questionou nem questiona.]
 
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